Histórias Inspiradoras

A Mãe Imperfeita: As confissões de uma mãe igual às outras, mas sem papas na língua

Filipa Rosa
publicado há 9 meses
0
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedIn

O blogue A Mãe Imperfeita foi lançado por Carmen Garcia, uma enfermeira alentejana sem medo de dizer o que pensa da maternidade. O sucesso foi alcançado em poucos meses e até um livro já lançou! Conheça a história desta mãe de dois filhos, um deles surdo.

Tudo começou em fevereiro de 2018. Carmen Garcia, de 32 anos, estava em casa, de baixa por gravidez de risco com necessidade de repouso. «Tinha recebido há poucas semanas o diagnóstico de surdez do meu filho mais velho e usava as redes sociais para me desligar um bocadinho de todas as coisas difíceis que me estavam a acontecer», começa por contar ao site Crescer. «Acontece que as redes sociais estavam cheias de blogues sobre famílias perfeitas, em casas perfeitas, com aspeto perfeito e filhos mais perfeitos ainda. E eu, grávida e mãe de um bebé surdo de um ano, não me identificava minimamente com aquilo que via publicado. Foi assim que decidi criar uma página de Facebook, com um blogue associado, onde pudesse mostrar a maternidade real sem máscaras e sem filtros. A maternidade imperfeita.»

A página começou ao mesmo tempo em que Carmen e o marido entraram no mundo da surdez. Uma fase de revolta, que entretanto acalmou. «A surdez tem-nos moldado a todos. Em relação a mim acho que me tornei uma pessoa mais paciente, que aprendeu a valorizar aquilo que merece ser valorizado e a não desperdiçar energias com “coisinhas”. Não posso dizer que ter um filho diferente é uma bênção, mas é garantidamente uma experiência que nos enriquece e nos molda o caráter. Quando escrevi o primeiro texto ainda estava um bocadinho na fase da revolta. Agora essa revolta não existe mais», conta.

LEIA TAMBÉM: Surdez infantil: Como diagnosticar o mais cedo possível e minimizar o problema?

Para Carmen Garcia, a maternidade é como uma ultramaratona para a qual as pessoas treinam imenso, mas nunca estão realmente preparadas porque há sempre fatores que são impossíveis de controlar. «A maternidade é um bocado assim. É um percurso difícil, de superação e empenho mas que a cada “quilómetro” percorrido nos enche de uma sensação maravilhosa. Às vezes dá vontade de desistir, o cansaço parece ser impossível de aguentar, mas depois vamos buscar forças dentro de nós, ao sorriso dos nosso filhos, e lá continuamos a nossa corrida. A corrida que dura a vida toda, que é difícil, cheia de altos e baixos mas que vale muito, mesmo muito a pena», afirma.

A inspiração para escrever os seus textos surge da sua experiência diária de mãe de duas crianças de idades muito próximas (dois anos e quatro meses), «pertencente à classe média trabalhadora que funciona com o dinheiro todo contadinho e que, quis a vida, tivesse um filho “diferente” daquilo que a sociedade convencionou ser o “normal”», diz sem rodeios.

Confrontada com a pergunta ‘O que a irrita mais nas outras mães?’, a enfermeira responde sem papas na língua. «A mania de acharem que aquilo que resulta para elas e para os filhos delas tem validade universal e, portanto, tentam a todo o custo doutrinar as mães que escolhem outros caminhos. Excepto obviamente situações que configurem negligência, acredito que cada mãe é livre de escolher aquilo que considera melhor para os seus filhos. E fico realmente “danada” quando vejo mães armadas em donas da verdade e detentoras do único conhecimento válido do mundo», confessa.

Entre os milhares de seguidores do blogue, há muitos que criticam e opinam sobre determinado post. Há um comentário negativo que a jovem não esquece. «Tenho recebido algumas críticas positivas e marcam-me particularmente as que me dizem que a minha página é uma companhia importante, que faz quem a lê sentir-se mais feliz e que, em alguns casos, tem sido uma grande ajuda para aceitar as diferenças dos filhos. Pela negativa tenho um comentário que recordo muitas vezes de uma senhora que, depois de eu ter dito que tinha optado, de forma consciente, pelas papas industriais me desejou que os meninos ficassem diabéticos para que, dessa forma, eu me pudesse arrepender da minha escolha. Enfim…», lamenta.

«Sim, o meu filho está doente. Não, não pode ficar com a avó» foi um dos primeiros textos que escreveu que se tornou viral (leia aqui). «Falava sobre as críticas a que as mulheres se sujeitam em contexto laboral quando precisam de ficar em casa por terem um filho doente. Mas tem havido muitos outros… Assim de repente lembro-me também do ‘Os filhos dos turnos’ que falava sobre o difícil que é conciliar a maternidade com o trabalho em regime de turnos e depois há outros, de carácter mais humorístico.»

O sucesso do livro

Com o sucesso do blogue, Carmen Garcia foi desafiada pela editora Ego a lançar um livro com textos inéditos, que acabou por ser intitulado ‘Os 10 Mandamentos de Uma Mãe Imperfeita’. «A verdade é que estava cheia de medo de desiludir as pessoas que me leem habitualmente, mas isso não aconteceu. As pessoas estão a gostar, a recomendar e a comprar para oferecer. Recebo muitas mensagens de mulheres que dizem que se identificaram com quase tudo e que o livro lhes fez tanta companhia que têm quase pena de o ter terminado. Também me dizem que deram muitas gargalhadas ao lê-lo mas que, no último capítulo (“Os filhos imperfeitos”), deitaram umas quantas lágrimas. E eu fico sempre a rebentar de felicidade quando recebo estas mensagens tão boas porque percebo que, de uma forma simples e despretensiosa, consegui chegar às pessoas.»

Esperava atingir este sucesso? «Nada mesmo. Quando comecei a escrever achava que o estaria a fazer para o meu marido, para a minha irmã e para mais meia dúzia de amigas. A verdade é que criei a página em fevereiro e já somos imensos!», diz aquela que está perto dos 30 mil seguidores.

Que conselhos deixa às mães de primeira viagem?

«Que não romantizem demasiado a ideia de maternidade e que não se agarrem, de todo, à ideia do conto de fadas. A maternidade é difícil e quanto mais as mulheres partirem para ela com essa noção melhor. Não vale a pena colocar a fasquia demasiado elevada. É levar um dia de cada vez e pensar que vão existir muitos momentos maus mas que, com toda a certeza, os bons serão de tal forma maravilhosos que vão fazer valer a pena.»

Siga a Crescer no Instagram

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Artigos relacionados

Últimas

Top
Botão calendário

Agenda

Consultar agenda