Saúde

Mariluz, a menina que enfrentou uma leucemia com apenas quatro anos

Filipa Rosa
publicado há 1 semana
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«A Mariluz era uma menina alegre e sorridente, cheia de vida como todas as crianças da sua idade. Com quatro anos uma dor de cabeça veio a confirmar ser uma leucemia. E o nosso mundo desabou…» As palavras são de Glória Lopes, uma mãe que ainda vive com o medo de perder uma das duas filhas.

Desafiada pelo site Crescer, Glória abre o seu coração e relata os acontecimentos e a montanha-russa que têm sido os últimos três anos. «Foi precisamente a 2 de novembro de 2016 que a minha vida se tornou num pesadelo», diz, recordando o nascimento da sua menina, hoje com sete anos, e o momento em que tudo mudou. «A Mariluz nasceu como todas as crianças, super normal. Foi-lhe diagnosticada uma doença oncológica aos quatro anos, essa mesma a que chamamos leucemia. Estava na escola e sentiu alguns sintomas, que a levaram a um desmaio. Fui chamada de imediato, pois estava a acontecer algo que não era, digamos, normal. Levaram-na para o hospital Padre Américo, em Penafiel, para ver o que se passava.»

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O duro diagnóstico

Glória não esquece o momento em que ouviu o duro diagnóstico. «Foi muito doloroso… Após as palavras da médica, o choque foi tão grande que fiquei desesperada. Lembro-me das suas palavras como se fosse hoje… É impossível esquecer… “Mamã, a Mariluz tem leucemia e resta-lhe minutos. Temos de chegar ao IPO o quanto antes…” Ouvir aquelas palavras foi como se tivesse desabado o mundo em cima de mim.»

O medo do desconhecido intensificou-se de dia para dia. Glória conhecia a doença, mas só de nome. Não imaginava o monstro que a leucemia é. «Ouvia falar sobre leucemia, mas não imaginava semelhante. Perdi as esperanças em certas alturas, por vezes questionava a mim própria o porquê… Porquê à minha filha?», recorda aquela que chegou a temer pela vida da filha. «Tive bastante medo de perdê-la e continuo a ter… Acho que vou viver com este medo para sempre. As pessoas falam muito sobre isso, mas nem sempre é fácil manter o otimismo, nem sempre é fácil acreditar que tudo vai ficar bem.»

A luta contra o cancro e a perda de cabelo

Assim que a pequena Mariluz entrou no IPO do Porto levou de imediato transfusões de sangue e plaquetas. Era urgente salvar a vida da menina de apenas quatro anos com tanto para viver ainda… Duas semanas depois iniciou a quimioterapia. «Os médicos não disseram logo que a única hipótese era o transplante, só o disseram depois de se aperceberem que o tratamento que a minha filha estava a fazer, não estava a resultar», recorda Glória, que desconhecia a força interior que tinha.

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Um dos piores momentos desta luta foi acompanhar as transformações físicas da menina, como a perda de cabelo. «Foi muito difícil… Passámos um ano fechadas num quarto, sem poder vir à rua. Nunca deixei a minha menina sozinha, acompanhei-a sempre. Foram dias, semanas e meses de muita luta. O lado bom é o facto da Mariluz ser uma menina compreensível. Ela não se importou com a perda de cabelo e nunca quis usar perucas, nem nada do género», conta.

A força de Mariluz nem sempre foi a mesma. E o sorriso daquela menina doce começou a desaparecer, deixando a mãe arrasada. «Quando teve que tirar os dentinhos, ela questionou-me: “Por que é que eu tenho de ficar sem cabelo e sem dentes, mamã?”. Depois destas palavras, ela deixou de falar, deixou de comer e deixou de brincar, eu já não sabia o que fazer… Para a menina não se sentir mal com ela mesma, decidi, juntamente com a minha família, começar a contar histórias que tinham acontecido connosco, quando ficávamos sem os dentes. Por momentos conseguimos arrancar-lhe algumas gargalhadas e, a partir daí, as coisas tornaram-se mais fáceis…»

O amor pelas filhas

A vida de Glória não tem sido fácil. É pelas filhas, Mariluz e Leonor, de 17 anos, que se mantém de pé na luta. O sorriso e a esperança nem sempre aparecem, mas o amor pelas filhas fala mais alto. «O meu pilar é, sem dúvida, as minhas filhas. Elas conseguem ter mais força do que eu, principalmente a minha menina. E fico feliz por elas serem mais fortes do que a mãe, para ser sincera, não sei se iria aguentar com isto tudo sem elas… A vida nem sempre é fácil e muitas vezes encontramo-nos em situações pouco favoráveis, tal como eu me encontro agora. Fica difícil de sorrir ou manter a esperança nestes momentos», confessa aquela que está nesta luta sozinha. «Não vivo com o pai da Mariluz. Na altura foram momentos difíceis para ambos, como é de esperar, estávamos a enfrentar uma fase difícil da nossa filha. Neste momento só eu é que acompanho as minhas filhas em tudo e tento que nada lhes falte.»

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Glória é muitas vezes considerada mãe-guerreira por passar por aquilo que nenhuma mãe merecia passar. «Sim, considero-me uma mãe-guerreira por conseguir ultrapassar estes três anos de sofrimento, aguentar com esta preocupação e dar forças à minha filha. Claro que a ajuda de alguns familiares meus, as coisas tornam-se mais fáceis, sei que posso contar com eles. Mas acima de mim está e sempre estará a minha filha. Ela, sim, é uma super guerreira, por ter conseguido ultrapassar tantos altos e baixos.»

O coma no dia de Natal

O duro diagnóstico foi difícil de ouvir. Mas foi no dia de Natal que Glória assistiu a um dos momentos mais arrepiantes, quando viu a sua filha entrar em coma, depois de muitos vómitos de sangue e hemorragias. «Nessa madrugada, depois de deitar tudo para fora, pediu-me para não chorar, para ter calma, que estava tudo bem e de seguida entra em coma… Pensei que tinha perdido a minha filha. Após dois dias acorda, chama por mim e pede para lhe dar a mão», recorda.

«Hoje em dia já não sei o que é viver sem preocupações. Quando conto às pessoas o que aconteceu com a Mariluz, e se ela ouvir, pede-me para esquecer, não quer ouvir coisas más. Será muito difícil esquecer, mas tentarei pela minha menina.»

«Ninguém consegue imaginar o quão difícil é»

Mariluz mudou por completo as prioridades de Glória Lopes. O facto de trabalhar por conta própria deu-lhe oportunidade de estar mais presente, apesar de ter sido obrigada a parar algum tempo. «A minha vida agora é baseada em dois lugares: casa e IPO. São poucos os tempos livres para poder levar a minha filha a passear, mas quando posso tiro o tempo que for preciso. Quero que a minha filha aproveite a sua infância, já perdeu dois anos da vida dela e agora vai perder mais algum tempo devido ao transplante», conta.

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«Ninguém consegue imaginar o quão difícil é. Só quem passa por estas situações é que sabe o que é viver dia perante dia com este pesadelo. Todos os dias quando me deito peço a Deus para que a minha filha viva por muito mais tempo. Acordo várias vezes durante a noite para me certificar que a minha filha está bem e que está ao meu lado. Não imaginam o alívio que sinto só de ouvir o suspiro da minha guerreira. Estou sempre com um pé atrás, com medo que algo de mal aconteça. Não posso estar em baixo ao lado da Mariluz, porque ela fica preocupada e triste, porque pensa que estou mal por causa dela, por isso é que muitas das vezes estou com um sorriso no rosto… forçado.»

Após várias campanhas de sensibilização, o inesperado aconteceu. Mariluz encontrou um dador compatível e o transplante aconteceu dia 31 de outubro durante a tarde. Neste momento o estado da menina é reservado e há ainda um longo período de recuperação pela frente, mas a esperança agora é outra, mais forte…

Mensagem a outras mães

Quem é mãe, dificilmente não estará comovida com a história da pequena Mariluz e com as palavras de Glória, que faz questão de deixar uma mensagem especial a todas as pessoas que possam vir a passar pelo mesmo. «Não baixem os braços, deem motivação aos vossos filhos para continuar a difícil luta. Às vezes, as dificuldades são tantas que parece impossível que as consigamos superar. Mas se esses problemas aparecem nas nossas vidas, é porque Deus sabe que conseguimos ultrapassá-los. É preciso ter fé, acreditar que conseguimos!»

O transplante de Mariluz não seria possível sem um dador compatível, mas esta menina não é a única que precisa de uma segunda oportunidade para viver. Por isso mesmo, a sua mãe faz questão de deixar um apelo. «É fundamental apelar aos portugueses e a todos aqueles que estão ainda indiferentes à doação de medula óssea. O medo é inevitável, mas a vida de uma pessoa que está nas nossas mãos é muito mais importante que qualquer agulha. Perca o seu medo e seja um doador de medula óssea. Uma perca de medo, uma vida salva. Salvar uma vida é salvar a si mesmo, sem esperar nada em troca.»

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