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Os filhos com duas casas… são felizes?

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publicado há 2 anos
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Quando tinha sete anos de idade, o meu pai deixou de estar. De estar em casa. De dormir na mesma cama que a minha mãe. De ser o rosto que eu via ao acordar e adormecer, durante a semana.

Mas não morri com falta de colo. Não me tornei a criança protegida, por 1+1 não dar 4.

Há pessoas que aparecem nas nossas vidas, só para nos ensinar ou para que lhes deixemos um ensinamento.

Sei que isto parece tudo uma caldeirada, sem rabo nem cabeça de peixe. Que língua está ela a falar? Perguntam vocês.

Estava um frio daqueles. Daqueles em que eu tinha de vestir uns collants por dentro das calças e a minha camisola de lã macia.

Chovia. O ar gelado cortava a minha cara. A minha melhor amiga, cá diz que conserva a pele e retarda as rugas. Vai-se lá saber…

Não me apetecia nada sair de casa. Deixar a taça das pipocas, o filme a meio e a minha metade a usufruir do quente deixado por mim no sofá.

Arranco na escuridão, para pegar um daqueles autocarros vermelhos tão conhecidos, onde ninguém respira lá dentro. São só 20 minutos, mas o inverno prolonga a viagem.

Cheguei à casa cinzenta e toquei à campainha, sem saber quem me abriria a porta. É o que dá quando vamos cuidar dos filhos dos outros, por passarmos a ser um negócio que vai de boca em boca.

Uma senhora na casa dos 40 abre a porta. Sorri e manda-me entrar. Na rádio está a tocar ‘The Black Hills of Dakota’. A chuva a bater no vidro. A lareira acesa. Perfeito.

Após umas pontas de conversa, oferece-me chá preto (com leite). Não me tornei inglesa ainda, mas eles insistem no leite com chá preto (sem sequer perguntar).

Olhei em redor e perguntei pela filha. (Já me tinha dado o resumo por mensagem, quando me quis «contratar» por esta noite).

– A Íris está lá em cima. Acabou de tomar banho.

De seguida, entra um homem todo aprumado e cheiroso pela sala.

– Este é o meu noivo, o Chris. Nós vamos sair para jantar e não devemos voltar muito tarde. Qualquer coisa, tens o meu número. – diz, com uma mão no sapato e outra na mala.

Subi para ver Íris. Estava a pentear-se em frente ao espelho. O quarto era em tons rosa, com imensas borboletas e luzinhas de perlim pim pim.

Antes de dormir, insistiu que eu lesse um livro e me deitasse junto a ela, até adormecer.

Ela já tem 10 anos de idade. Eu não esperava esta verdade absoluta com falta de carinho.

Escolheu um livro que falava de separação de pais. E no meu ombro encontrou o aconchego às lágrimas silenciosas que escorriam pelo seu rosto sardento.

Em roda viva, as memórias que não tem. De um pai presente só na fotografia da mesa de cabeceira, junto ao candeeiro.

Chorou-me a sua história de vida em apenas meia hora. Diz que a mãe não lhe pediu autorização para substituir o pai que é dela. Diz que a mãe quer fazê-la feliz com a presença de alguém, que não lhe erradica a dor da ausência.

Tem duas casas. Uma para a vida toda. Uma para as férias de verão e de Natal (sendo que o Natal é um ano a cada). Tem um meio irmão que lhe tira o lugar no colo do pai, na hora da história, do beijo quente, do abraço aconchegante. Que lhe tira o lugar, na hora das dúvidas dos deveres de casa. Que substitui o seu lugar na hora do jantar, enquanto conta como foi o seu dia na escola. Que lhe tira o lugar na hora de perguntar qual a melhor maneira de ganhar o jogo de futebol.

Eu também tenho duas casas. Tenho duas irmãs por acréscimo e uma irmã que ganha etiqueta de filha única por ser a mais presente para a minha mãe.

Íris espelhou a vida de muitas outras crianças, que como eu, viram os seus pais separarem-se. Uns com a sorte de uma relação saudável ter sobrevivido. Outros… nem por isso.

Em cada coração existe um quarto escuro. Quartos que ninguém visita e muitas vezes não é convidado a entrar. É nesse quarto escuro que assombram tristezas e mágoas. Raiva, dúvidas. Sentimento de desprezo. Sentimento de indiferença.

Há mães que fazem o seu papel a dobrar: mãe e pai. Há mães que não sabem ser mães. Mas há também há pais. Há pais que sabem ser pais. Que insistem ser pais. Ser ou Estar: não é suficiente. É preciso ser-se e estar-se.

Ela adormece no meu peito. O rosto já está seco. A confusão no seu coração, eu não arrumei. Ofereci apenas o colo. Não basta, eu sei.

Então aos pais separados, da Íris e de outras tantas crianças, fica aqui aquilo que os vossos filhos gostavam de vos dizer:

Somos filhos de ambos. Embora passemos mais tempo com um, do que com o outro, ainda precisamos dos dois.

Ajudem-me a manter o contacto com aquele que não passo tanto tempo.

Não falem mal um do outro à minha frente, nem comprem o meu amor. Essas zangas e jogos de conquista, magoam-me.

Não me privem do tempo. Eu preciso do tempo de cada um de vocês na minha vida.

Não deixem que eu aprenda que a dor da saudade, magoa.

Não me façam sentir inferior aos meus irmãos, que passam tempo com vocês todos os dias.

Era bom. Que mesmo quando as crianças ganhassem duas casas, pudessem ter uma infância feliz. É possível. Basta ter a sorte de um pai e de uma mãe, ponto.

 

 

 

Texto: Sandra Silva (Facebook e Instagram)

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