Saúde

Diabetes na gravidez: Os cuidados, as dúvidas e os mitos

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 1 ano
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«Diabética, doente, doente diabética… Não, não sou ‘a diabética’, também não sou ‘a doente’, e muito menos a ‘doente diabética’. Sou a Alexandra e sim, tenho uma doença crónica. Sou a Alexandra e sim, tenho diabetes tipo 1.» É desta forma que Alexandra Costa de Matos se apresenta no site Sim, Tenho Diabetes.

Aos 34 anos está grávida. Uma gravidez planeada e que, devido à doença que tem desde os dez anos, teve de ter cuidados especiais. «Devemos ter consultas de pré-concepção de forma a chegarmos a um controlo metabólico seguro para engravidar. Isto é, com os valores de glicemia o mais próximos possível do normal, com valores aproximados às pessoas sem diabetes. Estamos a falar de uma análise laboratorial com o nome Hemoglobina A1C, que nos dá uma média de glicemia dos últimos três meses que, antes de engravidarmos, deverá ter um valor abaixo de 6,5 por cento (este valor é o recomendado, no entanto, cada equipa de saúde deverá encontrar o valor ideal para cada mulher), de forma a reduzir riscos congénitos», explica ao site Crescer, apoiada pela médica que a acompanha, a Dra. Raquel Carvalho, endocrinologista do Hospital de Santa Maria. «Uma mulher diabética deve planear e preparar a gravidez: idealmente deve ter um controlo metabólico ótimo aquando da concepção. O esquema adequado para cada mulher em pré-concepção depende da sua situação em particular e do tipo de diabetes que tem. É muito importante serem rastreadas as complicações micro e macrovasculares no período pre-concepcional para estratificarmos o risco de complicações durante a gestação para a mãe e para o feto/ bebé. Para além do já mencionado, é fundamental rever todos os fármacos: alguns anti-hipertensores e os medicamentos ‘para o colesterol’ não podem ser usados na gravidez e deverão ser suspensos / substituídos no período pre-concepcional», começa por dar a conhecer.

Mas o tipo de diabetes que Alexandra tem, requer cuidados acrescidos: «Uma mulher com diabetes tipo 1 deve ter avaliação de função tiroideia antes de engravidar. Finalmente há que iniciar ácido fólico antes da concepção por forma a evitar defeitos do tubo neural. Algumas destas mulheres poderão ter indicação para outras terapêuticas (como por exemplo ácido acetilsalicílico) mas tem que ser ponderado caso a caso», explica a especialista.

 

Quais são as implicações da diabetes na gravidez?

 

Durante a gravidez, a sensibilidade à insulina está constantemente a mudar. Assim, no primeiro trimestre há uma maior suscetibilidade às hipoglicémias e a partir do 2.º trimestre há uma necessidade crescente de maiores doses de insulina. «Isto implica ajustes constantes no esquema / doses da terapêutica pelo que estas mulheres têm que ser seguidas em consulta específica com periodicidade, em média, bimensal», revela a endocrinologista.

E que tipo de acompanhamento uma mulher grávida com diabetes tem de ter? «Trata-se de uma gravidez de risco, mesmo em diabéticas bem controladas antes e durante a gravidez. Isto implica maior frequência de consultas bem como avaliações suplementares que uma grávida sem diabetes não faz por rotina, como é exemplo o ecocardiograma fetal ou avaliação oftalmológica).» 

Já Alexandra, sempre teve consciência de que teria de ter uma gravidez com alguns cuidados. Soube que estava grávida com apenas quatro semanas de gestação, «o que é muito positivo». «Fiquei logo atenta a todos os sinais do meu corpo e, em particular, da glicemia. O objetivo era evitar hipoglicemias (falta de açúcar no sangue) e hiperglicemias (excesso de açúcar no sangue), isto é, valores de glicemia abaixo de 70mg/dl e acima de 140mg/dl. E estar atenta às variações glicémicas, que com a gravidez alteram muito do padrão a que estamos habituadas. Tive também que fazer logo uma retinografia, um exame aos olhos que faço todos os anos a despistar a retinopatia, uma das complicações mais comuns da diabetes», explica.

Grávida de 28 semanas, Alexandra está à espera de uma menina a quem vai dar o nome de Alice. É seguida na consulta de Medicina Materno Fetal no Hospital de Santa Maria e o acompanhamento é mais comum do que uma gravidez onde a mãe não tenha diabetes. «Tenho consultas de diabetes de 15 em 15 dias desde a sétima semana de gestação. Se ao início achei esta frequência um exagero, imediatamente entendi porquê. As glicemias alteram à velocidade da luz, de forma completamente inesperada. É confortável termos o apoio de endocrinologistas habituadas a esta fase de gestação que nos encaminham e ensinam a gerir. É como se começássemos a aprendizagem do zero. Como já tinha peso a mais antes de engravidar, recomendaram-me a aumentar no máximo até 11 quilos, pois quanto mais peso temos, mais resistência fazemos à insulina. Faço hidroginástica e caminhadas, o que me ajudou bastante a controlar a glicemia a partir da semana 22, em que já começava a acusar dificuldade de descida das glicemias», relata ao nosso site.

 

Como é o parto e o pós-parto numa mulher com diabetes?

 

Já sabemos, através do relato de Alexandra e das explicações da endocrinologista, que existem alguns cuidados especiais a ter numa grávida que tem diabetes. Mas calma! Há que desmistificar a situação e a autora do site Sim, Tenho Diabetes é «perita» nesse aspeto.

A explicação é simples! «Gosto de desdramatizar, mas continuando a ser realista. A gravidez de uma mulher com diabetes é uma gravidez de alto risco. É importante que as pessoas saibam cuidar-se para que consigam ter uma vida saudável e sem complicações provocadas por uma diabetes mal compensada. Engravidar já tendo complicações da diabetes é um risco acrescido para a mãe, pois as complicações podem agravar-se. Pode constituir um risco para o bebé caso hajam problemas cardiovasculares. Além disso, durante a gravidez o controlo glicémico é muito rigoroso para que o bebé não fique pequeno ou grande demais devido a hipoglicemias ou hiperglicemias excessivas. No entanto, estando a diabetes bem compensada e tendo um acompanhamento clínico adequado num hospital de referência com seguimento de alto risco e endocrinologia, tem tudo para correr bem, como está a acontecer comigo», assegura.

E como fica o bebé no meio da diabetes? A endocrinologista garante que «o risco de um recém-nascido de uma mãe diabética ser diabético no período neonatal não é significativo em relação à população de grávidas em geral. Dependendo do tipo de diabetes da mãe, os filhos poderão ter um risco maior de, no futuro, virem a desenvolver diabetes (risco maior nos filhos de mães com diabetes mellitus tipo 2). Não há diagnóstico de diabetes no feto.» 

E na altura do nascimento da Alice, Alexandra já foi alertada para os cuidados especiais a ter no parto. «No parto quero garantir que não tenho hipoglicemia, pois precisarei de energia. De resto, não há mais cuidados especiais. É controlar a glicemia e esperar que seja um momento feliz e pouco doloroso.» 

E no caso da bebé… também terá exames específicos logo que nasça: «Sei que irão controlar os seus valores de glicemia nas primeiras horas de vida, pois a cada hiperglicemia que eu tenho, a bebé produz a sua própria insulina. Estando cá fora, já não sente as minhas hiperglicemias, mas se continuar a produzir a mesma quantidade de insulina que produzia dentro de mim quando eu estava com hiperglicemias, corre o perigo de ter hipoglicemias. À partida tudo normaliza em 48 horas. Quanto ao risco de ter diabetes tipo 1, é 2 por cento superior ao de uma mulher sem diabetes. E não costumam haver diagnósticos em tão pouco tempo de vida. Caso as glicemias da bebé estejam normalizadas, será tratada como outra bebé.»

 

Conselho a mulheres com diabetes que queiram engravidar

 

Para além de todos os cuidados que se têm de ter durante a gravidez, nunca podemos esquecer que as mães têm de ser as principais responsáveis pelo seu bebé e por si mesmas, claro está. Por isso mesmo, a doutora Raquel Carvalho dá alguns conselhos às mulheres que têm diabetes e que estejam a pensar em engravidar: «Procurem o médico nesse sentido, ou seja, peçam ajuda para programar a gravidez, informem-se dos seus riscos em particular e procurem um seguimento obstétrico e endócrino especializado.»

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