Saúde

Cancro da Mama: «No dia em que me tiraram o penso, olhei para baixo e só tinha uma mama»

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 8 meses
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Micaela Neves, de 35 anos de idade é o exemplo de que a vida, efetivamente, pode mudar do dia para a noite.

Em dezembro de 2016 engravidou e em abril, durante uma consulta de acompanhamento da gestação, percebeu-se que o feto não tinha batimentos cardíacos. Teve de ser internada e uns dias depois, já em casa, deu conta de que algo não estava ‘normal’. «Acordei durante a noite com uma sensação estranha na mama direita. De manhã, ainda na cama, levantei a camisola e vi uma enorme nódoa negra à volta do mamilo e quando coloco a mão na mama estava lá um nódulo, irregular, perfeitamente percetível à apalpação. Tenho a certeza de que no dia anterior não tinha aquilo. Assustou-me mais ver a minha mama roxa, com uma nódoa negra, do que o nódulo em si. Como ainda estava no período de convalescença da interrupção da gravidez pensei que seria um processo inflamatório, alguma questão hormonal».

Nesse mesmo dia foi ao médico e no dia seguinte conseguiu  «vaga para fazer ecografia e mamografia num hospital privado bastante conhecido.» «A pessoa que me fez estes exames disse-me para eu não me preocupar, que eu tinha um fibroadenoma na mama e que o mais certo era ser devido ao facto de o corpo se estar a preparar para uma gravidez que foi repentinamente interrompida e que agora o corpo estava hormonalmente a recompor-se. Saí do consultório com aquela pessoa a dar-me palmadinhas nas costas e a dizer-me para lá voltar depois de seis meses caso ‘aquilo’ não desaparecesse. Não me convenceu, não fiquei descansada», realça.

O cabelo de Micaela antes dos tratamentos
O momento da verdade

 

Dias depois, e visto que tinha uma consulta marcada em Coimbra, na maternidade,  para receber o resultado dos exames que lhe haviam feito a ela e ao feto, Micaela partilhou com a médica a questão do nódulo que lhe apareceu. «Eu ainda lhe disse: ‘Não se preocupe, está tudo bem, tenho aqui os exames que fiz’. Esta médica fez-me apalpação e mandou-me de imediato repetir todos os exames. Foi quando ouço outra médica dizer-me: ‘Já não é a sua mama que preocupa, é a axila. Tem de fazer uma biópsia’. E leio no processo escrito a vermelho ‘muito urgente’. E aqui percebi. Não foram precisos relatórios, não foi preciso ler resultados. Percebi logo ali, quando estava deitada naquela marquesa, que o assunto era mais complexo… Fiz a biópsia, voltei para casa e ao outro dia fui trabalhar», relata.

Quando os resultados da biopsia saíram, foram os Pais de Micaela que os foram buscar. «Acredito que a eles tenha doído mais do que a mim. Desde logo percebi que me pouparam. Ao telefone, a minha mãe só me disse: ‘Há aqui umas coisas que não estou a gostar’».

300 quilómetros separam Micaela dos Pais, daí, inicialmente, o telemóvel ter sido a ‘arma’ portadora das notícias. «Nunca ninguém me disse diretamente ‘tens cancro’; nunca ninguém me disse ‘tens uma doença’ ou ‘estás doente’. Um amigo da família, que é enfermeiro, e que estava a acompanhar todo o processo desde o início disse-me: ‘Tens aqui uma situação que é para ser resolvida’. E falámos, falámos e ele nunca dizia o nome da situação. Até que eu disse: ‘Vamos lá chamar as coisas pelos nomes. É cancro!’ E ele disse: ‘É!’»

A rapidez do processo

 

O diagnóstico foi de Cancro da Mama Triplo Negativo (TN) com axila positiva, ou seja, já com metástase na axila. «Até ter o meu diagnóstico eu pensava que cancro da mama é cancro da mama. Ponto. Mas não, há vários subtipos de cancro da cama. E eu fui brindada com aquele que é visto como ‘o pior de todos’, uma vez que para este sub tipo de cancro da mama ainda não existe uma terapêutica alvo, ao contrário dos outros subtipos. Neste momento já estão em desenvolvimento ensaios clínicos com terapêuticas alvo para este subtipo, mas até ao momento – e que eu tenha conhecimento – a terapêutica para o TN é o recurso a quimioterapia. E é uma lotaria, pois o organismo pode responder ao tratamento como pode não responder ao tratamento», revela.

Associado a isto há um ‘código’ designado de Ki67, que mede o índice de proliferação do crescimentos das células tumorais. «O meu era de 90 por cento. Ou seja, se eu tivesse levado a sério a opinião que me foi dada aquando a realização dos primeiros exames, certamente não estava aqui a contar a minha história», assegura Micaela, que garante que o seu processo foi todo muito rápido.

«Aqui tenho mesmo de falar do Serviço Nacional de Saúde, que tantas vezes é criticado. Dois dias depois de ter recebido o diagnóstico dei entrada no IPO de Coimbra e tive logo a primeira reunião de decisão terapêutica, onde é explicado todo o processo, abordagem e protocolo a seguir. No meu caso, o protocolo inicial foi de quimioterapia, mais cirurgia, mais radioterapia. Quinze dias depois já estava a iniciar a quimioterapia e já com todos os exames necessários para esta fase», explica, dando também a conhecer que numa primeira abordagem há vários exames necessários, que vão de um raio-x ao tórax a exames que medem a densidade dos ossos, a capacidade do coração, a TAC ou ressonância.

Estes exames são necessários para avaliar primeiro se há metástases espalhadas pelo corpo ou nos órgãos e depois para perceber se o corpo tem capacidade para aguentar a quimioterapia.

«Falei para aquilo que estava ali na minha mama e dei-lhe imediatamente ordem de expulsão»

 

A questão da ‘aldeia global’ que a Internet transmite nos dias de hoje é fundamental em certos aspetos, mas aterrador noutros. E Micaela assume que errou em se sentar e pesquisar sobre o seu problema. «Antes do início dos tratamentos muni-me também de várias ferramentas que senti que seriam importantes para mim e para o meu bem-estar físico e emocional. Como qualquer pessoa, e uma vez que estava a entrar no desconhecido, tive a brilhante ideia de pesquisar na Internet. Errado! A Internet matou-me logo. Segundo a Internet eu ia morrer. Percebi que o caminho não era por ali. Até porque hoje em dia o cancro já não é mais uma sentença de morte», garante.

Assim, a jovem focou-se apenas e só nela. «Falei muito com o meu corpo. Uma das coisas que me lembro logo no início de fazer foi falar para aquilo que estava ali e dei-lhe imediatamente ordem de expulsão. Foquei-me, mentalizei-me, pensei em toda a minha vida e percebi que em 33 (agora tenho 35) anos de vida eu sempre fiz e cumpri aquilo a que me propus. Portanto, isto seria só mais uma tarefa para cumprir com sucesso. Sabia que ia ser difícil… e foi. Foi muito difícil. Sabia que ia custar muito. Custou muito. E passou. E eu sabia que ia passar. Eu disse logo isto é para resolver e vai ficar resolvido». E ficou! 

Durante os tratamentos, «o tempo não passava.» «Aprendi que tempo e paciência devem estar aliados. Depois o corpo começa a ficar cansado. Os dias oscilam entre momentos de euforia e muita energia e dias de cama, mal-estar, má disposição, falta de força. Uma destas vezes em que quase já não tinha forças para vomitar, de cada vez que vomitava, sempre com o meu marido, com a minha mãe ou com a minha tia a segurarem-me, eu só repetia ‘eu sou forte, amanhã estou bem’. E o amanhã chegou!» 

 

Micaela durante uma sessão de quimioterapia

 

«No dia em que me tiraram o penso, olhei para baixo e só tinha uma mama. Não senti nada!»

 

O momento da operação chegou passados cinco meses do início do processo e depois de quatro meses de quimioterapia. «Foi no dia em que a minha filha fez três anos. Eu tinha pedido à minha médica para ela não me operar neste dia e ela pediu-me só para passar lá para fazer os exames pré-operatórios. Chego as 9:00, ao meio dia entro no bloco, com a médica toda sorridente a dizer-me: ‘Diga lá que este não é o melhor dia para começar uma vida nova?!’». E assim foi!

Quando acordou da operação, a nova vida começou.

«Após a cirurgia e durante o internamento, não senti o real efeito do que ali tinha acontecido. Tiraram-me a mama. Foi isto que me fizeram. Tiraram-me a mama, mas também tiraram o que lá estava, ou poderia estar. Eu tive resposta completa ao tratamento, isto quer dizer que o tumor teve remissão total durante a quimioterapia. Isto foi comprovado pela análise a peça cirúrgica (ou seja, a mama) que veio completamente limpa. E isto fez com que tivesse sido dispensada da radioterapia. Portanto, o que é o facto de não ter uma mama (que estou em fase de reconstrução entretanto) comparado com tudo o resto? Esta parte, a par com o cabelo, não me custou mesmo nada. Costumo dizer que eu não sou as minhas mamas. Não são as minhas mamas que me definem e felizmente a medicina estética está avançada a esse nível… No dia em que me tiraram o penso, olhei para baixo e só tinha uma mama. Não senti nada. Não tinha uma mama, mas estava ali, bem, e ia para casa para junto da minha família», conta com convicção.

 

«Depois de rapar o cabelo tomei banho e senti a água do chuveiro a cair na careca, a sensação do espetacular»

 

Habituada a andar com cabelo comprido, Micaela achou melhor cortar em várias fases, por forma a que o impacto não fosse tão grande. A filha, Rita, nessa altura com dois anos, acompanhou sempre a mãe na mudança de visual.

O momento em que o marido, Joaquim, lhe rapou o cabelo

 

Logo após o primeiro tratamento, Micaela começou a sentir os efeitos da quimioterapia. «Ao fim de três dias seguidos a cair, a ficar com a almofada e a banheira cheia de cabelo, sinceramente, já só queria livrar-me de cabelos a cair. Rapar o cabelo não me custou e aconteceu num momento propicio. Nesse dia, sem combinarmos nada concreto, estavam em minha casa vários amigos que marcaram épocas distintas da minha vida, desde a faculdade ao início da vida profissional, até agora. Era como se o passado e o presente estivessem juntos e sentimos que era o momentos indicado para assinalar o momento. O Joaquim (marido) rapou-me o cabelo com a Rita a assistir, bem como a filha e o filho de outras amigas que também estavam presentes. No final, a Rita ainda disse ‘agora sou eu’». 

A jovem, orgulhosa do seu visual

 

«Agarrei a minha filha e pedi a Deus que me permitisse ficar bem e viver»

 

Dona de uma tremenda força de viver, Micaela levou esta fase da sua vida sempre com pensamento positivo. Nunca se focou no ‘e se…’, porque para ela, isso não existia. «Agora, à distância, penso que poderia não ter voltado para casa, poderia não ter respondido ao tratamento, que poderia ter morrido. A verdade é que eu nunca pensei nestas coisas que poderiam ter sido crenças limitantes durante o processo e que o poderiam ter tornado mais difícil. E com isto não digo que não foi difícil. Foi difícil, muito difícil. Foi mau. Houve ali uma fase entre o segundo e o terceiro tratamento (fiz doze) em que me fui abaixo emocionalmente e fisicamente. Talvez tenha sido esse o momento mais difícil. Em que me agarrei a minha filha e pedi a Deus que me permitisse ficar bem e viver», revela.  

O espírito positivo e o facto de não se ‘entregar’ à doença, foi uma ajuda no ultrapassar das dificuldades que todo este processo acarreta para as mulheres e homens. «Foi esta a postura que eu assumi e que resultou comigo. Nunca em momento algum eu pensei ‘vou ter esta postura ou aquela. O que será que funciona melhor aqui?’ Não sei se dizer isto desta forma está correto, mas na verdade, a maneira como encarei tudo foi a mais inata possível. Eu sou esta postura. Porque também acredito que grande parte do controlo está em nós e na nossa cabeça. Basta acreditarmos em nós e aliar a isso tudo a vontade», garante.

 

Micaela, o marido e a filha Rita, momentos depois do corte de cabelo

 

Uma doença familiar

Associado a isto vem todo o processo emocional. O contar à família e aos amigos, o facto de ter uma filha de dois anos, em que teria de mudar de vida, não foi, de todo, tarefa fácil. «As crianças têm sempre uma maneira ligeira de viver os processos. O nosso só foi mais complexo porque vivemos muitas mudanças marcantes e drásticas num curto espaço de tempo. Quando estávamos a começar a habituá-la ao facto de ir deixar de ser filha única, tivemos de lhe explicar que afinal o mano já não vinha para casa e logo a seguir tivemos de lhe explicar que afinal também já não íamos ficar na casa nova e que íamos viver para casa dos avós, que ela ia ter uma escola nova e que o pai só às vezes é que estava ao pé de nós. Assim explicado parece mais difícil do que na prática foi. Não foi fácil, mas tudo fluiu. Atribuímos a tudo a maior normalidade possível e quando podíamos fazíamos uma festa com tudo.»

E em todo este processo, a ajuda da família e dos amigos foi, claro está, fundamental. «Tivemos sempre a nossa volta um esquadrão familiar que nos amparou em tudo durante este processo, em especial com a Rita. Fomos apologistas da verdade. Eu e o meu marido contamos-lhe que a mãe não estava bem e que tinha de ir ao médico. Mas depois sempre que era o dia do tratamento, ela ficava com a minha tia, que trabalha na escola onde ela ficou durante o processo e assim era mais fácil levá-la e trazê-la. A maior parte das vezes ela nem deu conta do que se estava a passar. Mas houve um dia em que me senti mal durante a noite e o meu marido teve de me levar para a casa de banho. A Rita acordou, levantou-se, e quando demos conta ela estava ao pé de nós a ver-me vomitar. Mais uma vez funcionou a naturalidade do momento, sem dramas»conta.

Quando uma mulher – ou um homem – passam por um processo destes, esta doença acaba por ser ‘alastrar à família’. «Não foi só a minha vida que mudou. Toda a minha família foi obrigada a mudar as rotinas e a viver em função de mim. Eu tenho a certeza de que a Minha família e os meus amigos sentiram e viveram mais o cancro do que eu. Tenho a certeza que a minha família sofreu mais do que eu. Para uma mãe e para um pai é contra-natura ver um filho passar por esta condição. Para a minha avó, que tem 90 anos… Tenho a certeza de que a certa altura o meu marido teve medo da possibilidade de se ver sozinho com a nossa filha. Tenho a certeza que as minhas amigas carregaram um peso no estômago durante meses. No dia em que eu recebi aquele diagnóstico ele passou também a ser do meu núcleo. E cada um fez com ele aquilo que achou que fazia mais sentido fazer. Uns foram embora e outros ficaram e viveram tudo comigo, de mãos dadas.  Também é importante referir que houve quem se voltasse a aproximar, em especial uma amiga de quem gosto muito e com quem já não falava há dez anos. E digo que para eles possa mesmo ter sido mais difícil, porque eu sei o que sentia, mas eles não. (à exceção de um grande amigo que tenho que passou pelo mesmo). A verdade é que eu nunca tive cancro nem o cancro me teve a mim. E isto eu não sei explicar, é o que sinto.»

Conselhos a quem esteja a passar pelo mesmo

 

Para Micaela, desde que soube tinha cancro, «tudo mudou» na vida dela. «É um período de mudança física e emocional que ainda está a acontecer. Os efeitos dos tratamentos de quimioterapia refletem-se a longo prazo e tem repercussões na vida e no dia a dia. E depois há também a parte emocional e psicológica que precisa de ser trabalhada. Não sei como é com as outras pessoas, mas a mim custou-me a fase pós-tratamentos. Quando tudo acalmou e a adrenalina baixou e eu perguntei ‘e agora o que é suposto fazer?’».

E que conselhos se dão às pessoas que estejam a passar pelo mesmo problema? «Não há fórmulas perfeitas para viver esta condição. O que resultou comigo pode não resultar com outra pessoa e vice-versa. Portanto, ninguém tem de assumir determinada postura face a esta condição só porque viu outro alguém fazer igual ou porque alguém lhe disse ‘tens de ser forte’. Ser fraco também faz parte. Chorar também faz parte. Ficar na cama também faz parte. Mas ao terceiro dia levantar! Acima de tudo: ouvir o corpo, respeitar os limites e confiar na equipa médica. E dar paciência ao tempo. No Facebook há um grupo chamado Survivor Woman, destinado a mulheres com diagnóstico de cancro, onde todas falamos a mesma linguagem e estamos sempre dispostas a ajudar. Existem também o Survivor All Togheter, este aberto a mulheres e homens com diagnóstico de cancro, bem como a profissionais de saúde. E o Survivor Family, destinado a familiares e cuidadores de doentes com cancro, para que estes possam também expor dúvidas e partilhas acerca de como lidar melhor com a situação. Os grupos são fechados e privados e a adesão é feita após resposta às perguntas indicadas», explica.

A imagem de uma mulher sempre com espírito positivo, captada por uma grande amiga

 

Hoje, Micaela está «curada.» Mas para a medicina, as coisas não são bem assim. «Para a medicina um doente oncológico nunca está curado. Está ‘em controlo’; ‘em vigilância’. Por mais que eu diga e repita que estou curada, para a medicina não é assim. Mas recordo que quando a médica leu o relatório, que fui encaixando cada palavra que ela dizia e que senti um conforto enorme», desvenda.

«Depois de tudo eu já não consigo ficar eufórica, nem dar pulos de alegria e saltos para o ar quando o assunto são boas notícias. Face às coisas boas prefiro dizer que me sinto confortável e imagino-me a sorrir com a cara e com os olhos», garante.

Hoje, Micaela está saudável e continua a levar a vida com um sorriso e pensamento positivo

 

É assim que esta jovem de 35 anos pretende continuar a viver a vida: com pensamento positivo, junto de quem ama e com muita, mesmo muita saúde e… alegria.

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