Família

Tratar os filhos por “você”: O “não assunto” que continua na ordem do dia

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 3 semanas
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Tratar os filhos por você: educação ou distanciamento? O site Crescer conversou com pais que tratam os filhos por “você” e com filhos que tratam os pais por “você”. Saiba ainda a opinião de uma psicóloga sobre este “não assunto” que continua na ordem do dia.

«(…) tratar os filhos por você ou na terceira pessoa trata-se de um ato cultural, de algo enraizado na educação da família, passando de avós para pais e de pais para netos, como algo natural. Não terá começado agora, só porque sim, mas terá passado de geração em geração. Não quer dizer que não me soe estranho, em pleno século XXI. Sinto que usei uma máquina do tempo e que estou algures no século XVII, perante uma burguesia abastada», começa por escrever Joana Paixão Brás no blogue A Mãe É Que Sabe.

«Não vou usar os argumentos da falta de proximidade entre pais e filhos, nem associar o “você” a uma educação severa e distante, porque não é claramente por aí. Mas há qualquer coisa de formalidade, de altivez (não digo que seja propositada), há uma muralha ou um altar que nasce neste tratamento. E não digo que nasçam muralhas entre pais e filhos, mas sim entre estes e os demais. Entre estes e os que não pertencem a essa elite, os que tratam por “tu”», continua.

Usar estes excertos de um dos blogues de maternidade mais lidos em Portugal, não foi, de todo, ao acaso. Muitas são as pessoas que têm a mesma ideia que Joana e lhes faz a mesma “confusão” ouvir pais e filhos a tratarem-se por “você”.

Por isso mesmo, o site Crescer conversou com pais que tratam os filhos por “você” e com filhos que tratam os pais por “você”.

Para além disso, também falámos com uma psicóloga sobre este “não assunto” que continua na ordem do dia.

«As relações e a cumplicidade criam-se pela atenção que damos e pelo carinho, e não pelo tempo verbal»

Marta é mãe de dois rapazes, o Manuel, de seis anos e o Vicente, de cinco. «Trato os meus filhos na terceira pessoa, não é por você», começa por realçar.

«Acho que é por hábito, ou seja, já vem de família e acabamos por passar para os nossos filhos. Não os trato sempre na terceira pessoa, mas a maioria das vezes sai assim. Não é pensado, sai natural. Os meus filhos com cinco e seis anos às vezes tratam-se por você, porque os ensinámos que as pessoas mais velhas são assim tratadas e porque também nos ensinaram assim», continua.

Confessa que, também ela, trata os pais por “você”. Mas, curiosamente, o pai trata-a por “tu”. E por ter os dois exemplos na família, a jovem não entende o porquê da sociedade continuar a abordar o tema como se fosse «uma coisa do outro mundo».

«Mete-me um bocado de confusão a curiosidade das pessoas. Não percebo por que acham estranho. Não me faz confusão que tratem os filhos por “tu”. Acho que é natural. Tem a ver com a educação que cada um teve e não quer dizer que seja melhor ou pior… é só mais uma vez questão de hábito», diz.

Há quem diga também que com a palavra “você” se cria um distanciamento entre pais e filhos. Marta não concorda. «Acho que não faz sentido nenhum. Não é por tratar um filho por “tu” ou “você” que há mais ou menos aproximação. Ao tratar os meus filhos na terceira pessoa transmito a mesma confiança que os pais que os tratam por “tu”. As relações e a cumplicidade criam-se pelo tempo que passamos juntos, pela atenção que damos e pelo carinho, e não pelo tempo verbal», garante.

«Respeito não significa distanciamento»

Sandra Silva tem 22 anos e vive com o pai e com a mãe. Também ela trata os pais por “você”. «Desde que me lembro que é assim. Para mim é normal. É como os filhos que tratam os pais por “tu”… não me faz confusão», assegura.

A jovem é uma cara conhecida do grande público por ter participado em várias novelas e séries portuguesas e, sendo hoje em dia uma “it girl” e uma referência nas redes sociais, tudo o que faz, acaba por suscitar alguma curiosidade dos seguidores.

«Comecei o meu canal no youtube há um ano e tem sido uma aventura muito engraçada e desafiante. Já partilhava muito o meu dia a dia no Instagram e comecei a ter um público fiel que me sugeriu o canal. Sem dúvida que é uma das coisas que me dá mais gosto fazer a seguir à representação. Quero continuar a investir no mundo digital mas sem dúvida que é na representação que atinjo o meu auge de felicidade e realização profissional e pessoal», começa por dizer.

O facto de ter mais de 34 mil seguidores na rede social Instagram e quase 17 mil subscritores no canal de Youtube, “Esta Miúda Não Existe”, faz com que, quando partilha algo relacionado com os pais, os fãs lhe façam questões mais pessoais. E o tratar os progenitores por “você” é um dos pontos abordados.

«As pessoas ainda fazem alguma confusão à volta do tema. Às vezes em stories ou vídeos no canal com os meus pais, os meus seguidores e subscritores reagem e perguntam o porquê de tratar por “você” e alguns dizem que lhes faz confusão. Penso que as pessoas têm curiosidade porque não é a realidade delas e tudo o que é estranho ou novo traz-nos curiosidade. Isso não precisa de ser mau, pode ser apenas curiosidade. As pessoas perguntam-me, porque como tratam os pais por “tu” gostam de saber o porquê de eu não o fazer. Eu explico que assim como tratam por “tu”, eu trato por “você”», assegura.

E no que diz respeito ao distanciamento entre pais e filhos que esse tratamento pode causar… «Considero que não tem nada a ver. Eu tenho uma relação incrível e super íntima com os meus pais, muito mais do que amigos e conhecidos que tratam os pais por “tu”. Eles sabem praticamente tudo da minha vida, mesmo as questões mais íntimas. Tenho um grande à vontade com eles para lhes contar tudo da minha vida, desabafar e pedir conselhos e ajuda… sempre. Tratar por “você” é, muitas vezes, associado ao respeito e eu concordo. Quando as pessoas são mais velhas, quando não as conhecemos… mas respeito não significa distanciamento», continua.

Apesar de tratar os progenitores por “você”, eles, por sua vez, tratam-na por “tu”. E como será quando Sandra tiver filhos? Irá tratá-los por “tu” ou por “você”?  «Confesso que já pensei nisso mas nunca de forma propositada, só porque às vezes me perguntam ou porque me imagino com filhos e penso como vai ser. Acho que os vou tratar por tu porque faz todo o sentido. Eles vão-me tratar da forma que se sentirem mais à vontade. O que importa é a relação em si e não se me tratam por “tu” ou por “você”», termina.

A opinião de uma psicóloga

O que transparece na sociedade é que ainda é estranho ouvir pais a tratarem filhos por “você” ou vice-versa. Há quem ache que é por ser algo “chique” e há quem tenha ideia de que isso cria um distanciamento entre pais e filhos. A nível psicológico/sociológico existe essa teoria? Há, efetivamente, provas de que tratar alguém por “você” cria distância? A psicóloga Sofia Moura explica.

«Existe uma herança cultural em Portugal que nos diz que tratar o outro na terceira pessoa é um sinal de boa educação. Quem nunca ouviu a frase tão portuguesa “Tu?! Andei contigo na escola para me tratares por tu? Respeitinho é bom e eu gosto.” E observe-se… Começamos a perceber que estamos a ficar mais velhos quando se dirigem a nós por “você”. Tipicamente tratam-se as pessoas mais velhas e as superiores hierarquicamente por você. Ainda que estejamos claramente em mudança, este requinte pretensioso já não se observa em muitas empresas portuguesas, em que todos se tratam por tu, independentemente do cargo e/ou idade», avança.

Relativamente ao trato com as crianças, a conversa “é outra”. «Para que elas nos respeitem não entendo que seja necessário o trato por “você”, assim como entendo que não se cria necessariamente um distanciamento com elas. Isto depende sempre de outros fatores, nomeadamente o tipo de vinculação, e da qualidade da relação com os seus cuidadores», garante.

Na escola é normal os mais pequenos acharem “estranho” alguns colegas tratarem os pais por “você” ou ouvirem os amigos a serem tratados também dessa forma. Como se deve explicar a uma criança essas diferentes formas de abordagem entre familiares? «Explica-se da mesma forma que se explicam outras diferenças. Explica-se que existem outras escolhas alternativas à nossa, outros hábitos e outras tradições. Ensina-se a respeitar, sem que olhem para isso como melhor ou pior», realça a especialista.

Este é  ainda um tema “tabu” em Portugal e por isso mesmo, qual a forma indicada de dar a conhecer a uma criança que trata e é tratada por “você”, que esta é uma questão banal e que não há diferenças entre os seus amigos por isso? «Deve explicar-se, como referi anteriormente, que se trata de uma tradição familiar, uma escolha como tantas outras que cada família faz e que independentemente da forma como se tratam, são todos meninos com os mesmos deveres e os mesmos direitos», finaliza.

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