Família

Sim, há mães que não gostam dos filhos: «Se tu não tivesses nascido, eu era feliz!»

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 2 anos
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Será difícil e até aterrador pensar que uma mãe pode não gostar de um filho. «Impossível», dirão muitos. Mas não é! Prova disso é o livro escrito pela jornalista Lucília Galha intitulado ‘Mãe, por que não gostas de mim?’.

Aqui estão contadas oito histórias, resultantes de mais de 40 horas de entrevistas. «(…) Não basta ser mulher para ser mãe, a maternidade é uma coisa que se vai construindo e aprendendo e nem todas as mulheres querem ser mães», escreve a autora na introdução.

Testemunhos que dão que pensar

 

Frases de uma mãe para um filho, como são exemplo, «não, não gosto nada de ti» ou «se tu não tivesses nascido, eu era feliz» estão presentes nesta obra, que é um verdadeiro «murro no estômago».

O site Crescer conversou com Lucília Galha, a autora, que explicou como foi escrever esta obra e perceber que, afinal de contas, o amor de uma mãe pode não ser incondicional.

 

A obra, da editora Esfera dos Livros, está à venda por 12 euros

 

Crescer – Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre este tema tão ‘chocante’?

Lucília Galha – Foi um desafio que me foi feito por parte da editora, a Esfera dos Livros, e que eu aceitei logo porque me inquietou. Na altura, tinha sido mãe há apenas 10 meses e, à semelhança da maioria das pessoas, também tinha aquela visão romântica de que uma mãe gosta dos seus filhos e faz tudo por eles. Depois deste trabalho percebi que o alegado incondicional amor de mãe pode, afinal, não existir. E que há várias razões para isso acontecer, não é tão simplista como haver boas ou más mães.

Como foi o processo de procurar/encontrar estas histórias?

Foi moroso e difícil como acontece sempre que se trabalha num tema tabu. Foi preciso bater a várias ‘portas’, falar com psicólogos, tentar através de contactos pessoais, etc. Foram precisos 12 meses até conseguir encontrar as oito histórias. Não é um tema fácil de partilhar, sobretudo com uma desconhecida, porque constitui uma grande mágoa na vida destas pessoas. Curiosamente, agora a posteriori, tenho sido contactada por diversas pessoas que passaram pelo mesmo e que afirmam que gostariam de ter participado, se tivessem sabido antes deste projecto. Afinal, não é uma realidade assim tão marginal como à primeira vista pode parecer.

Como é que uma jornalista/escritora, mas que também é filha e mãe, se prepara, emocionalmente, para um trabalho destes? E o que se sente ao ouvir estes relatos?

Os temas mais duros e difíceis são aqueles que me dão mais prazer trabalhar, tanto enquanto jornalista como enquanto autora, porque me desafiam e não são lineares. Neste sentido, sempre que avanço para um tema deste género, já vou de certa forma preparada para a possibilidade de que aquilo que vou ouvir me desconcerte ou seja difícil de digerir. Enquanto filha e enquanto mãe, felizmente, tenho uma experiência bastante diferente e distante destes casos, portanto isso também me ajuda a criar a imparcialidade necessária para os ‘trabalhar’ de forma isenta e para os apresentar sem julgamentos. Contudo, nunca deixa de ser duro e difícil de perceber como é que há mães que dizem a um filho(a) coisas como «Eu nunca gostei de ti» ou «Se tu não tivesses nascido, eu era feliz» – como acontece em dois casos do livro.

 

«Durante muito tempo, achei que era impossível que ela me amasse. Cheguei a dizer-lho algumas vezes: nenhuma mãe príbe os filhos de brincar, de sair, de viver. Ela ficava enfurecida, ralhava comigo, gritava e à svezes dizia:’Não, não gosto nada de ti’. E depois, ia chorar para o quarto (…)»

(in ‘Mãe por que não gostas de mim?’ Página 20)

 

Diz-se, muitas vezes, que não há um amor como o de mãe e que é um amor como não há igual no Mundo. Estes relatos mostram que não é bem assim…

O que estes relatos mostram é que o amor de mãe pode não existir e que há várias razões para isso acontecer. Existem casos em que a vinculação (o laço que se estabelece entre uma mãe e o bebé à nascença) pode não acontecer. Por outro lado, algumas destas mães retratadas no livro tiveram vidas complicadas, relações com as suas mães complicadas e o padrão tende a repetir-se e a perpetuar-se a não ser que haja uma intervenção, o que implica apoio profissional. Estas mulheres, fruto das circunstâncias das suas próprias vidas, não conseguiram dar mais ou fazer melhor. E esta ideia de haver mães que não gostam, ou não querem, ser mães é uma coisa que ainda não é socialmente aceite e é encarado, de alguma forma, como uma atitude egoísta.

Num dos relatos, uma mãe diz à filha, várias vezes, que não gosta dela. No final do testemunho pode ler-se: «Achava que a minha mãe não gostava de mim, mas tenho consciência agora de que ela é o ser que mais ama os filhos». (página 34) Este testemunho, como outros, é o exemplo de que, apesar de tudo, os filhos encontram sempre uma razão para ‘desculpar’ os maus-tratos dos Pais – neste caso da mãe. Foi isso que sentiu com estas entrevistas?

Não acho que haja uma desculpabilização dos maus-tratos, que nestes testemunhos são sobretudo mais emocionais e psicológicos do que físicos, talvez antes uma interiorização do que aconteceu e, de certa forma, a aceitação de uma realidade diferente. Cinco destas pessoas já passaram por um processo de terapia e isso ajudou-as com certeza a perceber melhor o que lhes aconteceu. Talvez não tenham perdoado ainda, acredito que nalguns casos talvez isso nem seja possível, mas preferem resguardar as suas mães e fazer diferente do que elas fizeram consigo.

Quase todos estes casos demonstram uma enorme carência por parte das progenitoras e, consequentemente, dos filhos. São fruto do passado das mães. Mas nenhum deles, com as suas vidas, passou para os filhos aquilo que viveu com as progenitoras. Qual a explicação para tal? Do que conversou com as pessoas, tem a ver com gerações, personalidades?…

Estes filhos conseguiram quebrar o padrão e sentiram necessidade de agir de maneira completamente diferente com os seus filhos. Penso que isso terá a ver sobretudo com o facto de, como referi anteriormente, cinco destas pessoas já terem feito terapia e recebido apoio profissional, mas também com o contacto/encontro com outras figuras importantes e de referência que acabaram por colmatar este vazio e lhes deram algum colo.

 

«Hoje penso que a minha mãe talvez sinta alguma inveja da minha vida. Ela precisava de ter tido alguém ao lado dela como eu tenho. Porque o meu pai podia ser extremoso comigo, mas como marido falhava um bocadinho».

(in ‘Mãe por que não gostas de mim?’ Página 56)

 

Nem todas as mulheres nasceram com o dom para serem mães. É esta uma das mensagens que quer transmitir com este livro? É esta a questão da vinculação que fala no início da obra?

Também. Esta ideia de haver mulheres que não querem ser mães é uma coisa que ainda não é socialmente aceite ou que, pelo menos, é fruto de um ‘julgamento’ prévio. Quando uma mulher casa, ou se junta com alguém, existe muita pressão para que ela engravide e se torne mãe. Surgem logo perguntas como: «Então e filhos?» Nem todas as mulheres querem ser mães e penso que isso ainda é encarado como uma forma de egoísmo. Por outro lado, mesmo aquelas que, à partida, o desejam podem não sentir prazer nesse papel: os últimos estudos demonstram que cerca de 3 por cento se encaixa neste grupo. Isso pode ter a ver com a falta de vinculação, sim, e com todas as outras razões já explicadas anteriormente.

No livro fala-se das mães, mas a verdade é que, em alguns casos, a figura paterna tem também um papel determinante nos maus-tratos. Por que razão foi escolhido apenas um homem para este trabalho? É mais difícil os homens contarem as suas histórias?

Não foi uma questão de escolha, gostaria de ter tido mais casos masculinos mas não consegui encontrar. Este foi o único e foi o último, porque fazia mesmo questão de incluir o caso de pelo menos um homem no livro – não só porque a sensibilidade de um homem é diferente da de uma mulher, como a relação com a mãe também o é. Não pretendendo entrar num discurso sexista, penso que sim, que é mais difícil para um homem partilhar este tipo de vivência do que para uma mulher.

‘Mãe é mãe’, diz-se. É por isso mais chocante ouvir uma mãe dizer que não gosta de um filho do que um pai?

Sim, o conceito de amor de mãe é sagrado culturalmente. Penso que é muito mais difícil para as pessoas aceitarem/compreenderem uma mãe que não gosta dos seus filhos, do que um pai. A sociedade ‘desculpa’ mais facilmente os homens do que as mulheres por esta falta. Além disso, os casos no feminino são muito mais camuflados e menos falados.

 

«Cresci com a minha mãe a dizer-me que a culpa da miséria da vida dela era minha. Lembro-me de uma frase que ela repetia muitas vezes: ‘Se tu não tivesses nascido, eu era feliz.’ A efetividade desapareceu e, a certa altura, já não sentia nada da parte dela (…)»

((in ‘Mãe por que não gostas de mim?’, Página 141)

 

Depois deste trabalho consegue entender por que razão há tantas pessoas que façam a questão: «Mãe, por que não gostas de mim?»

Depois deste trabalho, a ideia de existirem mães que não gostam dos filhos continua a inquietar-me mas percebi que por detrás desse não-amor, dessa relação de amor-ódio, de negligência e de opressão, existe toda uma história, há sempre uma razão. Uma razão que pode até não ser justificável, ou seja, acredito que algumas destas mulheres não deveriam sequer ter sido mães, mas que está presente e que fez com que estas mães tivessem agido como agiram com os seus filhos.

 A nível pessoal, que mensagem principal retirou deste trabalho?

Este trabalho foi duro, desconcertante por vezes, mas também me trouxe coisas muito boas: perspetiva, humildade e compreensão de que a realidade não é tão simples ou linear como haver ‘bom’ e ‘mau’. Penso que é uma leitura interessante para todas as pessoas, pais ou não, porque nos ajuda a relativizar e, se calhar, até a desconstruir e a ultrapassar coisas que se passaram connosco.

E depois deste projeto, que conselhos se dão às pessoas que continuam a perguntar: «Mãe, por que não gostas de mim?»

Que é possível ultrapassar este legado negativo e quebrar o padrão, que não estão sozinhas, que podem e devem falar sobre o assunto para o digerirem e tentarem superar. Que essa é também uma escolha que se faz. Gostava que este livro servisse como ferramenta de superação para quem viveu uma história semelhante a estas.

 

A autora da obra em questão Lucília Galha é jornalista na revista Sábado e ‘Mãe, por que não gostas de mim’ é o seu segundo livro, tendo sido o primeiro, ‘Morte Assistida – Temos o Direito de Escolher a Forma como Morremos?’

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