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Quebrar o Silêncio: A associação que ajuda homens a ultrapassar abusos sexuais escondidos durante anos

Filipa Rosa
publicado há 2 semanas
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O nome da associação Quebrar o Silêncio diz tudo. E surgiu da experiência pessoal de Ângelo Fernandes. Tinha apenas 10 anos quando foi abusado sexualmente por um amigo de família. Esta é a primeira associação portuguesa de apoio especializado para homens vítimas ou sobreviventes de violência sexual.

«Cresci a acreditar que tinha sido o culpado pelo abuso e por isso também cresci com fortes sentimentos de vergonha associados a essa experiência traumática», começa por contar ao site Crescer o fundador da associação, que tem um passado marcante. «Hoje, com o conhecimento técnico e especializado que temos na associação, sabemos que essas são algumas das consequências comuns nos homens que foram vítimas de violência sexual. No entanto, durante anos acreditei que não podia nem devia procurar apoio, porque tinha sido levado a acreditar, pelo abusador, que de facto tinha sido eu o responsável.»

Este envolvimento por parte do violador fez com que Ângelo permanecesse em silêncio durante anos. «Levou-me a pensar que estava sozinho, que o meu caso era único. Só depois dos 30 anos é que finalmente consegui procurar apoio. Esta minha experiência levou-me a fundar a associação. Até criarmos a Quebrar o Silêncio, não havia nenhum espaço como o nosso que permitisse que estes homens pudessem falar e partilhar as suas histórias em segurança. E é exatamente isto que os sobreviventes que nos procuram nos dizem, que finalmente sentem que podem fazê-lo. E temos casos de homens com 50, 60 ou 70 anos que estão a partilhar pela primeira vez as suas histórias de abuso. Homens que passaram toda a sua vida a sofrer em silêncio e que finalmente têm o apoio que merecem.»

Ângelo fundou a associação "Quebrar o Silêncio"
Ângelo criou a associação “Quebrar o Silêncio”

 

Ângelo vivia em Manchester, no Reino Unido, quando tudo aconteceu. Foi lá que encontrou a ajuda que precisava. «No Reino Unido existem respostas de apoio para homens e através da Survivors Manchester pude ultrapassar as consequências do abuso que sempre afetaram negativamente a minha vida», conta aquele que rapidamente percebeu que não existia este tipo de apoio no seu país.

«Como em Portugal não havia nenhuma organização semelhante achei que seria importante criar, por cá, uma resposta especializada no apoio de homens vítimas ou sobreviventes de violência sexual. Tinha um desejo pessoal de garantir que os homens portugueses que foram vítimas de violência sexual tenham a mesma oportunidade que eu tive. A verdade é que este é o início de uma caminhada, pois há muitos homens que continuam silenciados, não só pelas consequências dessa experiência traumática como pelo estigma associado aos homens que são vítimas. Há muito trabalho por fazer para que possamos ter uma sociedade que reconheça e aceite a realidade de que um em cada seis homens é vítima de alguma forma de violência sexual antes dos 18 anos.»

Sentiu afastamento por parte de alguém a partir do momento em que decidiu revelar o seu passado? «Não. Antes pelo contrário, senti uma maior aproximação das pessoas amigas e familiares. A questão que coloca é muito pertinente, porque vários homens vítimas ou sobreviventes receiam partilhar a sua história devido à forma como as pessoas poderão reagir. Há homens que receiam que não acreditem nas suas palavras, que sejam desacreditados e que lhes digam que foram eles os responsáveis pelo abuso. A verdade é que temos conhecimento de vários casos em que é esta a realidade. Os casos de violência sexual contra homens e rapazes não são reconhecidos como tal, são mal diagnosticados e nem sempre não são vistos como crime. Em média, um homem que tenha sido abusado sexualmente na infância, demora cerca de 26 anos até procurar apoio, são anos e anos a sofrer em silêncio.»

Aos rapazes que sofrem de abusos sexuais…

Apesar do trauma, Ângelo Fernandes fala à Crescer abertamente sobre o seu passado e sobre a associação que criou e não esquece aqueles que ainda vivem em silêncio com uma dor profunda causada no passado.

«Cada caso é um caso, mas é fundamental que os homens e rapazes que foram vítimas de violência sexual saibam que não estão sozinhos e que podem contar com a Quebrar o Silêncio. É importante que os homens e rapazes sobreviventes saibam que o seu caso não foi isolado e que há outros homens que passaram por situações de violência sexual e que, acima de tudo, merecem apoio para ultrapassar as consequências originadas pelo trauma», afirma.

Para o jovem, ainda há muita discriminação em relação aos homens. O sexo masculino sempre foi considerado o sexo mais forte pela sociedade, que acaba por desvalorizar atos como estes, de violência sexual. «Existe uma falta de consciencialização de que os homens e rapazes também são afetados pela violência sexual. Mesmo que haja menos casos do que mulheres e raparigas, não deixa de ser uma realidade preocupante e nenhuma vítima deve ser silenciada e ficar sem o apoio que merece. Há ainda um grande estigma quando falamos de homens vítimas e que está muito associado aos valores tradicionais da masculinidade. Muitos sobreviventes referem que têm receio de serem vistos como “menos homem” porque foram vítimas ou porque procuraram apoio. A verdade é que estas ideias estereotipadas sobre a forma como o homem deve ser e comportar-se, continuam enraizadas na educação dos homens e mulheres, e acabam por tornar-se obstáculos no acesso aos serviços de apoio», refere.

Fundar a Quebrar o Silêncio foi a sua resposta à necessidade de dar a conhecer à comunidade o apoio que teve na Survivors Manchester. «Como o meu processo está resolvido e ultrapassado, não tenho quaisquer problemas em falar dos abusos sexuais de que fui vítima, mas esta é uma opção pessoal. Isto é, na Quebrar o Silêncio não incentivamos a que os homens façam partilhas públicas ou que exponham a sua história pessoal. Cada sobrevivente tem o direito de não partilhar a sua história, e cada homem é que sabe se o deve fazer ou não», explica Ângelo, que encara todos os casos de forma igual.

«Cada caso é único e não podemos desvalorizar uma vítima ou sobrevivente porque o seu caso não se enquadra, por exemplo, na ideia de violação com recurso a violência física e com agressões. O importante é reconhecer que a experiência traumática afetou o rapaz ou o homem, independentemente de o abuso ter sido pontual ou recorrente, ter uma duração de vários anos ou não, do sexo do abusador ou abusadora, ou outras características», refere.

26 anos, em média, até procurar ajuda

Segundo Ângelo Fernandes, a maioria dos casos de violência sexual contra homens e rapazes ocorre na infância e, em média, um sobrevivente demora cerca de 26 anos até procurar apoio. «Temos casos de homens que nos procuram 50 ou 60 anos após o abuso. Neste casos é impossível denunciar e apresentar queixa dentro do atual quadro legal português», explica Ângelo.

«Também é importante reconhecer que quando estes homens chegam até nós, na Quebrar o Silêncio, por vezes estão em crise e procuram um apoio e acompanhamento psicológico para, numa primeira fase, estabilizar o impacto que aquele trauma gerou na sua vida e posteriormente ultrapassar as consequências.»

A ajuda imediata de um psicólogo seria fundamental? «Há estudos que indicam que numa criança que seja abusada sexualmente e tenha logo um acompanhamento psicológico, a probabilidade de trauma pode reduzir significativamente. Mas a verdade é que estamos longe dessa realidade, a maioria das crianças é silenciada e não partilha que foi vítima de violência sexual. Temos conhecimentos de casos em que, quando um rapaz partilha com os pais, essa partilha não é reconhecida como tal e, por vezes, não só é culpabilizado pelo abuso (acreditam no abusador e não na vítima), como há ocorrências em que esse rapaz terá depois de provar a sua masculinidade com comportamentos hiper masculinizados.»

«E porque sabemos que os homens demoram anos e mesmo décadas em silêncio, costumamos dizer que quando apoiamos um homem vítima ou sobrevivente de violência sexual, também estamos a apoiar a criança. Aquele menino que foi abusado sexualmente — na maioria dos casos por um familiar ou alguém da sua confiança — que cresceu sem o apoio que necessitava, que foi remetido para o silêncio que é comum nas vítimas de violência sexual, e que teve de aprender a sobreviver sozinho a lidar com o impacto e consequências do abuso, muitas vezes desenvolvendo ou encontrando estratégias desadequadas.»

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