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Por que é que as crianças precisam tanto de brincar?

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publicado há 2 semanas
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Crescemos, muitos de nós que hoje somos pais, a ouvir a célebre frase: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades».
Mas será que devemos levar isto à letra e aplicar esta frase a todos os quadrantes da nossa vida? Tenho sérias dúvidas. Do que não tenho a mais pequena dúvida é da importância da brincadeira no desenvolvimento/crescimento de uma criança.

No meu caso particular, cresci a brincar na rua, horas e horas a fio. Manhãs, tardes e também à noite. Eram tempos diferentes? Eram, pois claro que sim. Mas eram diferentes, essencialmente, porque a esmagadora maioria das crianças brincavam umas com as outras, num espaço privilegiado para a brincadeira: a rua.

Jogava-se à apanhada, às escondidas, à lata, ao piolho, faziam-se corridas (a pé ou de bicicleta), cabanas, canudos, guerras de balões de água, jogava-se MUITO à bola, às cartas, ao lencinho e à barra do lenço, subíamos às árvores, caíamos, partíamos cabeças, pernas, braços, apanhávamos fruta, fazíamos asneiras, fugíamos, tocávamos às campainhas, difícil era saber ao que é que se ia brincar naquele dia.

Quando é que deixámos de brincar na rua?

Quando foi, não sei, mas sei que hoje, isso deixou de existir. Porquê?  A resposta parece-me evidente: porque a tecnologia entrou, de forma massiva, na vida de todos nós, e porque trabalhamos e vivemos a uma velocidade verdadeiramente estonteante.

A tecnologia arrombou as portas de praticamente todas as casas de todas as crianças deste país, deste mundo.  Mas será que o mundo está assim tão mais perigoso do que estava há 30 anos? Esta é uma pergunta de resposta difícil e que deve ser respondida por cada um de vós que estiver a ler este texto. Uma coisa é inegável: faz-lhes muita falta brincar na rua.

Hoje não conhecemos sequer todos os vizinhos do prédio em que vivemos. Não fazemos a mínima ideia do que fazem, de onde vêm, ou como é que se chamam os seus filhos.  E isso, isso também contribui de forma decisiva para que as famílias se fechem sobre si mesmas, em particular nos grandes centros urbanos.

Mas olhemos então para os principais benefícios da brincadeira na vida de uma criança:

– Conhecimento de si mesmas

Quando estão a brincar, as crianças estão também a adquirir preciosos e valiosos conhecimentos sobre o seu próprio corpo e a perceber as suas limitações. E isto, isto é tão importante como as actividades em que as inscrevemos, os trabalhos de casa, as regras, e tudo o que exigimos aos nossos pequenotes.

Claro que é muito importante que se possa manter um ambiente seguro para que a criança brinque, mas é igualmente vital que, no caso dos bebés, estes tenham a possibilidade de passar pelas diversas “etapas” que fazem parte do crescimento: falo de andar, correr, cair, tropeçar, levantar-se e recomeçar.

Tudo isto vai contribuir decisivamente para que perceba verdadeiramente até onde é que pode e consegue ir e a superar as dificuldades que for encontrando pelo caminho.

– Tornar-se mais resiliente

Quando está a brincar, a criança vai desenvolvendo uma capacidade emocional fundamental para a sua vida: a resiliência.
Durante uma brincadeira com um amigo em que acaba por perder o jogo que estão a jogar, a criança é “forçada” a enfrentar e a saber lidar com a frustração da derrota.

Para lidar com essa mesma frustração, ela terá de ser capaz de adaptar-se e desenvolver o seu olhar sobre o mundo a partir disso.

Uma criança resiliente aprende a lidar com as suas decepções, derrotas e frustrações e fica mais capaz de enfrentar as adversidades que a vida lhe vai colocar.

– Trabalhar a interacção social

A interacção existente nas brincadeiras é igualmente um factor determinante no desenvolvimento de uma criança.
No decorrer das brincadeiras com familiares e amigos, a criança é obrigada a uma série de interacções físicas com estas mesmas pessoas.

Esta interação ajuda-a a aprender a ouvir, a saber partilhar, a conseguir respeitar os outros e até mesmo a entender as diferenças entre os diferentes intervenientes nessas brincadeiras. Sejam eles adultos ou crianças.

– Capacidade de autodomínio e tempo de atenção/concentração

Seja a montar um puzzle, a empilhar cubos ou copos, a tentar equilibrar-se num só pé, a fazer o pino, a ponte, a saltar, a correr, a subir às árvores, ou a esconder-se durante um jogo de escondidas, todas estas actividades contribuem de forma indelével para que as crianças desenvolvam e aperfeiçoem o autodomínio, o auto controlo e para aumentar o seu tempo de concentração.

– Trabalhar em equipa

Não é novidade para ninguém que a capacidade de trabalhar em equipa é extremamente valorizada nas sociedades contemporâneas, sobretudo se estivermos a falar a nível profissional na construção da própria carreira – coisa que mais cedo ou mais tarde todos nós temos que fazer.

Assim, a capacidade de interagirmos e de nos relacionarmos com os nossos colegas, amigos, familiares, maridos, mulheres, pais ou filhos, é de uma importância fundamental para a vida em sociedade, até porque, mais tarde ou mais cedo, todos nós acabamos por nos tornarmos parte integrante de um determinado grupo.

Por isso, é importante que sejamos capazes de ouvir, mas também de ter uma voz activa dentro desse grupo.

Para terem noção, um simples e tantas vezes banal jogo de futebol entre amigos, tem um impacto tremendo na capacidade de interagirmos e de trabalharmos em equipa. Não há volta a dar, até porque não estamos sozinhos neste mundo.

– Trabalhar e desenvolver o pensamento

A grande maioria das brincadeiras têm uma coisa em comum: regras.
E o mais engraçado nos meio dessas regras é que todas elas acabam por fazer a mesmíssima coisa – colocam-nos em situações de impasse.

Para conseguirem progredir somos forçados a resolver estas situações, recorrendo ao raciocínio lógico, ao pensamento rápido.
Isto obriga incontornavelmente as crianças a pensar – algo que parece hoje tão difícil de alcançar – a esgrimir argumentos, a discutir, a debater, a ter de esperar pela sua vez, a tomar decisões críticas e a ter de encontrar soluções.

O processo de aprendizagem por tentativa e erro acaba por prepará-los para situações futuras, munindo-os de uma bagagem considerável que lhes permitirá tomar melhores decisões em situações futuras.

– Imaginação, criatividade, pensamento artístico e capacidade inventiva

A nossa imaginação desenvolve-se tendo como ponto de partida uma actividade tão simples – mas tantas vezes menosprezada – como ler/ouvir uma história,

Devemos por isso desafiá-las a ir mais longe, dar-lhes objectos que as forcem a construir qualquer coisa, a criar, a inventar, a dar vida a objectos inanimados. Vale tudo. Acreditem que estão a prepará-los para serem adultos mais capazes e desenvoltos. Não tenham a mais pequena dúvida quanto a isto.

– A fundamental importância das regras

As brincadeiras são igualmente determinantes no processo de aprendizagem e interiorização da existência de regras.

Aprender desde tenra idade que existem regras que têm de ser escutadas e respeitas prepara-nos antecipadamente para o mundo que vamos enfrentar quando crescermos. E isto, minha boa gente, isto é das coisas mais importantes que podemos fazer pelas nossas crianças – ajudá-las e prepará-las para aquilo que é a vida em sociedade.

– Livros, sempre!

Assusta-me e muito que nos dias que correm as crianças estejam a deixar de saber brincar com os elementos que o mundo, a natureza, os brinquedos lhes oferecem. Oferecer telefones a crianças pequenas para que se entretenham durante largos e longos períodos de tempo é errado e quem afirma o contrário está redondamente enganado. Está mesmo. Não se trata de uma cruzada minha. Nada disso. Trata-se da ciência a dizer que assim é.

Vejamos o exemplo dos livros. Raramente vejo crianças a ler na rua, a ver livros de histórias, a contar essas mesmas histórias em voz alta, a imaginar, a recrear, a repetir, a interiorizar as realidades ficcionadas que só os livros oferecem e que são tão perfeitos para fazer pontes com a realidade.

Há dias lia um texto do Miguel Esteves Cardoso sobre isto mesmo, do qual destaco este parágrafo:

«A grande maioria das pessoas já não associa a leitura ao prazer. Só pode ser isso. Lêem para estudar, para aprender, porque pensam que lhes faz bem ou dá jeito. Mas não lêem pelo prazer de ler, de ser transportado para outros mundos, onde não sabemos o que vai acontecer – ou sabemos mas gostamos de lá voltar, à procura duma coisa diferente em que não tenhamos reparado.»

É este o mundo que queremos deixar aos nossos filhos e netos?
Um mundo onde não há magia, não há imaginário, não há sonhos, onde não há sequer a capacidade de lidar com a frustração, onde se esmaga a criatividade em nome da modernidade? Não contem comigo para isso.

Lembrem-se, estamos a educar e a ajudar a crescer os futuros donos disto tudo. É, por esta mesma razão, fundamental que saibamos dizer NÃO, sob pena de estarmos a criar adultos impreparados e incapazes de responder às adversidades que todos nós sabemos que a vida teima em nos impor.

 

Texto: Blogue Agora Nós os Três

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