Família

Os filhos devem ou não tomar banho com os pais?

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 2 meses
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A educação é discutível e nunca há um consenso em relação ao que está certo ou errado.

Não há verdades absolutas, mas existem opiniões e o site Crescer quis saber mais sobre um tema que ainda é tabu para muitos pais. Afinal de contas, os filhos devem ou não tomar banho com os pais?

Susana é mãe de Diogo, de quatro anos. Confessa que só tomou banho uma vez com o filho. E essa vez bastou para não voltar a repetir. «Não me senti à vontade. Não estava nada confortável», começa por nos contar. «Apesar de abordarmos a nudez de forma natural e de andar despida em frente ao meu filho, na questão do banho sinto que é demasiada intimidade. Tomei uma vez e não vai voltar a acontecer», assegura.

Já Filipa é de outra opinião. Mãe da pequena Beatriz há cinco anos, desde cedo que habituou a menina a tomarem banho juntas. «Nunca vi qualquer problema nisso. E o meu marido também toma banho com ela», desvenda. «Tratamos a nudez com a maior das naturalidades e respondemos a todas as dúvidas que ela possa ter de uma forma também natural», continua.

Mas até que ponto é saudável isto acontecer? Há um certo ou errado? O site Crescer conversou com a psicóloga, coach e facilitadora da parentalidade consciente Cátia Pereira Dias, para que ajudasse a esclarecer os pais sobre este tema.

A partir de que idade as crianças começam a suscitar curiosidade pelo corpo humano?

Para iniciarmos esta abordagem, tentámos perceber a partir de que idade as crianças começam a suscitar curiosidade pelo corpo humano. «Os bebés nascem com um elevado sentido de curiosidade e de necessidade de explorar, através dos sentidos, o mundo à sua volta. Para a sua sobrevivência, eles precisam de estar em contacto com o seu cuidador (mãe, pai ou ambos), um cuidador gentil e seguro que lhe permita explorar esse mundo», começa por nos dizer a especialista.

Uma forma de conhecer o mundo «é através das nossas fronteiras, que delimitam o nosso corpo, através de um dos órgãos mais sensoriais: a pele.» Assim, o bebé a partir do momento em que se começa a balançar, a chegar aos pés, a colocar as mãos na boca, começa a ter uma enorme curiosidade pelo seu corpo. «Esta curiosidade é natural e saudável. Mais tarde, a criança começa a explorar outras partes mais íntimas do corpo, a observar diferenças no seu corpo e de outras crianças e até mesmo dos adultos», continua.

Como devem os pais falar com os filhos sobre o corpo?

De que forma os pais devem abordar este assunto? «Esta observação deve ser abordada pelos pais com a total naturalidade, de quem quer saber mais sobre si. Por norma, as crianças a partir dos quatro anos já começam a ter o maior discernimento do corpo humano e a privacidade e observação da emoção é ainda mais importante».

À medida que a criança vai crescendo, também o vínculo vai evoluindo, «o que significa que é importante também estarmos atentos à forma como a criança procura se conectar. Se nos primeiros anos de vida, o afeto é essencialmente expresso pelos cuidados físicos, como o banho, com o passar do tempo… o contacto físico permanece importante, mas de uma nova maneira, através dos abraços, beijos, festinhas e colo.»

Nudez: naturalidade q.b.

É importante, como já se referiu, os pais abordarem a questão da nudez de forma natural. Mas é positivo os progenitores andarem nus em frente aos filhos?

«Vai depender da idade da criança, do sistema de crenças dos pais, do estado emocional dos pais e da própria criança. O ser humano é dos mamíferos mais dependentes de cuidados dos outros nos primeiros dois anos de vida. A pele é uma ótima forma de ajudar na regulação emocional da criança e ela precisa desse contacto para se desenvolver de uma forma saudável, o que deve ser feito de uma forma respeitosa e consciente», explica a psicóloga.

Além disso, a forma como os pais veem a nudez é o ponto central nesta pergunta, porque nem todos se sentem à vontade para o fazer. «É muito importante saber respeitar isso. A congruência nos pais, ou seja, sinto o que digo e faço aquilo que sinto e digo. É a fórmula mágica para uma parentalidade com vínculo seguro», acrescenta a especialista.

À medida que as crianças vão crescendo, a nudez pode gerar um conflito interno despoletado pela observação da nudez. «As crianças sentem prazer, mas começa por ser um prazer não sexual passando mais tarde a sexual. Essa descoberta deve ser feita comunicando com a criança, ajudando a entender as diferenças e respondendo às suas perguntas e curiosidades de uma forma autêntica», diz.

Mas há mais itens a realçar. «Outro ponto importante é ensinar a criança a respeitar os seus próprios limites, a saber dizer que não e pedir o consentimento para quando vamos tocar no corpo dela. Isto é fundamental e cada vez mais há pais despertos para esta questão, o que ajuda também os pais a estarem mais conectados com o que lhes é verdade».

Os pais devem ou não tomar banho com os filhos?

«O banho deverá ser um momento relaxante para todos e isso nem sempre é possível. Seja por uma questão de logística familiar, por uma questão de tempo, de diferentes necessidades da criança e dos pais… E são muitas as vezes que os banhos se tornam verdadeiras zonas de guerra», garante.

É importante ter em conta a forma como os pais veem esta questão e de como é que os pais se sentem quando tomam banho com os seus filhos. «Há pais que optam por tomar banho com as crianças, por uma questão de praticabilidade, de ajudá-la, de simplificar o dia e também porque é divertido e faz parte da rotina familiar. Se os pais estão a fazê-lo por obrigação, pode se tornar uma má experiência para a criança. Quando gera constrangimento, é porque os limites estão a ser ultrapassados, logo, se a mãe ou pai se retirarem, explicando a razão, faz com que a criança entenda os limites e também aprenda mais sobre isso», realça a psicóloga.

Mas há outra questão a ter em consideração. «É que se eu quero que o meu filho vá tendo cada vez mais autonomia e responsabilidade. Os pais precisam de refletir de que forma o estão a fazer agora, para que isso seja possível no futuro», explica. E continua: «Se eu quero que o meu filho tome banho, sem ter que o dizer mil vezes, então é importante que a estrutura de dependência inicial seja bem segura».

Por fim, a questão de observar e ler os sinais da criança, de não forçar a criança a fazer algo que não quer; quando ela afirma que não quer tomar banho sozinha, respeitar o contacto na pele, de uma forma delicada e pedindo consentimento prévio. «Dar a opção à criança que se quer tomar banho junta ou separada».

Como devem os pais explicar o que é a nudez?

De que forma os pais podem contornar a situação da curiosidade dos mais pequenos em relação à questão da nudez? «Primeiro, analisar como se sentem relativamente à questão da nudez, reconhecer as suas emoções e reconhecer também as emoções das crianças. Assim como, quais são os significados que atribuem à nudez, qual é o padrão de crenças que sustentam as suas vivências, que advém muito da sua educação e de como os seus pais viam a nudez», explica a especialista.

Desta forma, «a nudez deve ser explicada com a máxima gentileza e respeito por aquilo que é o corpo humano, sem passar pudor, rejeição, julgamento do corpo, vergonha, ou até a ideia de que “algo está de errado com…”. Não só a nudez, mas sim a privacidade da criança precisa de ser muito respeitada e não é só no banho, é também no dia-a-dia. Isso passa, pelos pais estarem atentos e não comentar a atitudes intimidade da criança a outros adultos, para não expor a criança. Quando está a ser explicada a nudez, ter a capacidade de dizer que não sabe, que vai perguntar, respeitar a necessidade de não ter de responder no imediato, “eu vou ver melhor essa questão e depois respondo-te” é uma forma consciente de se conectar com o seu filho», finaliza.

 

Agradecimentos: Cátia Pereira Dias, Psicóloga | Coach | Facilitadora Parentalidade Consciente 

Site: www.catiapereiradias.com

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