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«No fundo, fui eu que matei o meu filho»

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publicado há 3 semanas
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Sempre sonhei em ser mãe. Lembro-me de brincar com Nenucos e outros bonecos do género quando era miúda. Ficava sempre deslumbrada. Sempre! Vestia mesmo a pele de uma mãe dedicada ao seu bebé.

Cresci. E assim que tive oportunidade, já casada e feliz, engravidei. Foi mágico tudo o que vivi até começar o inferno. Até chegar aquele dia em que o meu sonho deixou de ser perfeito.

Ninguém devia passar por esta experiência. Não há maior dor… Perder um filho, seja de que maneira for, deixa-nos cicatrizes na alma para sempre. Mesmo que depois nasçam outros filhos.

Felizmente, com a ciência e a tecnologia bem avançadas, é possível diagnosticar más formações do feto no início da gravidez. No «início». Para mim não interessava estar de seis semanas ou de cinco meses… Ele estava dentro de mim. O «MEU» filho. Mas não era perfeito. Ia nascer com problemas graves que iriam afetar toda a sua vida. Iria depender de mim sempre. Assustador!

Depois do diagnóstico feito, o mundo desabou na nossa cabeça. Eu e o meu marido chorámos muito… muito mesmo agarrados um ao outro naquela consulta. A doutora respeitou esse momento e deixou-nos uns minutos a sós. Minutos esses que nos possibilitavam refletir. A opção era nossa. Continuar com a gravidez ou não.

Ainda hoje choro a recordar a dificuldade que tivemos em decidir. Claro que não queríamos que o nosso filho nascesse sem saúde plena. Iria sofrer. Mas abortar por decisão nossa… foi a maior dor de todas.

Chorei durante todo o processo… Todos os dias acordava a pensar que estava a viver um verdadeiro pesadelo. Queria acordar e perceber que era tudo mentira. Mas não. Tive muito medo. Medo de me arrepender, medo de nunca mais conseguir ter filhos, medo de não conseguir viver bem com a minha consciência.

No fundo, sinto que fui eu que matei o meu filho. As lágrimas não param de cair ao escrever este texto. Tenho dois filhos lindos e saudáveis, mas nunca mais vou esquecer a minha primeira gravidez. O sonho que se desmoronou. Não há descrição possível… acho que só quem passa por isto me percebe.

Há pessoas mais insensíveis que dizem que abortavam «na hora» se descobrissem más formações do feto. Não é assim tão fácil… Aquele feto tinha o coração a bater, existia! Era o nosso filho. E ia chamar-lhe de Guilherme. Esteja onde estiver, espero que consiga perdoar-me…

As manas Raquel e Inês quando crescerem vão saber que o mano «Gui» está no céu a olhar por elas, por nós… Porque é isso que sinto. Ele está sempre lá, cada vez que vejo uma estrela a brilhar…

 

 

 

Texto: Eduarda Carvalho (a todas as mães que têm de tomar «a» decisão)

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