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Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos choca: «Menino veste azul e menina veste rosa!»

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 6 meses
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Jair Bolsonaro tomou posse no passado dia 2 de janeiro e a polémica estalou por terras de Vera Cruz. Só que desta vez, o destaque vai para outra pessoa que não o atual Presidente do Brasil.

Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do novo governo brasileiro está nas “bocas do mundo” por ter dito que o Brasil entrou numa «nova eraMenino veste azul e menina veste rosa». E é esta a frase que está a gerar “burburinho” entre o povo brasileiro, mas não só…

Estas declarações estão a tornar-se virais, através de um vídeo partilhado nas redes sociais e foram proferidas após a cerimónia da tomada de posse da ministra.

 

«Estamos outra vez a colocar as crianças em caixas»

Perante estas afirmações, o site Crescer conversou com Mónica Canário, coordenadora nacional do HeForShe em Portugal e Investigadora no Centro de Estudos Internacionais, que luta, diariamente, pela liberdade de escolha do ser humano. «Existe o arco-íris e existe o preto e branco. Dentro do arco-íris existe um espectro de cores enormes e isso existe por algum motivo. Não existe só para usarmos só cor de rosa ou azul. Nem tudo o que seja feminino é só para meninas e tudo o que seja masculino é só para meninos. O que “sair a caixa” nem sequer tem lugar na sociedade. Estamos outra vez a colocar as crianças em caixas, não lhes dando liberdade total para serem e fazerem o que quiserem, tendo liberdade de escolha. As pessoas devem ter liberdade de escolha para serem aquilo que quiserem. É muito isso que eu trabalho todos os dias», começa por comentar.

Na verdade, a frase «menino veste azul e menina veste rosa» pode ser muito mais do que apenas uma frase.

A ideia de que só os meninos podem gostar de carros ou só as meninas podem gostar de princesas, ou qualquer outro exemplo de imposições de género, podem causar distúrbios, não só na infância e adolescência, mas também na vida adulta. «Todos nós já ouvimos histórias de pessoas que quiseram por termos à vida, porque durante a infância não puderam ser aquilo que queriam. Foram tão fechados e ostracizados pela sociedade, que o facto de terem crescido com a ideia de que estavam mal, se ouvirem isso durante 18 anos, isso vai mudar as suas vidas e vai fazer com que ao fim desses 18 anos achem que algo está errado consigo. Isso vai mexer com aquilo que as pessoas sentem e são. As pessoas vivem revoltadas. Quem são os outros para dizer que eu estou errada ou vice-versa?», questiona Mónica Canário.

E acrescenta: «São estas questões que não fazem sentido. Se eu sou uma menina, não posso usar azul? Isto é um regredir de direitos e de oportunidades. Nos últimos anos, principalmente desde 2016, tem-se visto um retrocesso muito grande a nível de direitos, que por sorte não se têm repercutido em Portugal. Tem sido um tempo de muito trabalho e de muita luta. No que diz respeito a direitos humanos não podemos dormir. Não podemos fechar os olhos», alerta.

“Guerra aberta” ao aborto

Para além da polémica do «azul e do rosa», a Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do novo governo brasileiro foi ainda mais longe. A questão do aborto está também na ordem do dia. «Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher», disse numa conferência de imprensa.

Damares Alves é advogada e evangélica, e garante que o seu ministério não vai tratar do tema aborto, mas sim de assuntos relacionados com a vida. «Sou contra o aborto. Nenhuma mulher quer abortar. Elas chegam até ao aborto porque, possivelmente, não lhes foi dada nenhuma outra opção», realçou.

A ministra garante que não deve alterar a legislação que permite a prática nos casos de violação, risco de vida da mãe ou problemas no feto. Mas ainda assim… «O aborto apenas nos casos necessários e aqueles previstos em lei. Mesmo nestes, eu tenho certeza que, quando é oferecida à mulher uma outra opção, ela pensa duas vezes», disse.

«As mulheres brasileiras não têm apoio»

A coordenadora nacional do HeForShe em Portugal e Investigadora no Centro de Estudos Internacionais garante que estas declarações são a prova de que, «à partida, as mulheres brasileiras não têm apoio.» «É impossível estarmos de acordo com o que os ministros fazem, porque cada um tem os seus ideais, mas isto trata-se de uma liberdade de um direito que as mulheres têm. A liberdade de escolhermos o que quisermos. É preciso que haja escolha. Se temos a escolha de não o fazermos, então não fazemos, mas se formos a favor do aborto, mas não tivermos oportunidade de o fazer porque no país onde vivemos é ilegal, isso já não temos liberdade de escolha».

Outra questão que muito se aborda nos últimos dias está relacionada com a violação e o aborto. Quererá Damares Alves colocar em causa que uma mulher violada não deverá pôr termo à gestação? Logo ela que assumiu ter sido violada por pastores da igreja quando era criança?

A polémica está ao rubro e Mónica Canário fala sobre o assunto. «Faz mais confusão por ter vindo de uma mulher que assumiu ter sido violada. Não entendo como alguém tem este pensamento, independentemente da sua ideologia e da sua religião, como e que mantém esse pensamento», diz.

«Em Portugal, o aborto é legal desde 2007 e desde essa altura que não morreu nenhuma mulher por complicações por causa do aborto. Estamos a falar de 11 anos porque os abortos são feitos em lugares seguros e com acompanhamento médico. Antes existiam muitas complicações, as mulheres podiam ficar estéreis, entre outras questões. Há toda uma história por trás do aborto, que deve ser vista, não só como uma opção entre um bebé nascer ou morrer. Há muitas variantes que levam uma mulher a abortar. Deve ser uma escolha ponderada e pessoal e não deve ser legislada como uma proibição», acrescenta Mónica.

«Que se enganem os homens que acham que isto não os afeta»

As questões em relação às ideologias mencionadas são, de facto, polémicas, e para Mónica Canário, «ao longo do mandato de Jair Bolsonaro, as coisas não vão ser só isto. Vão progredindo até à regressão máxima.» 

E fica o “aviso”. «Que se enganem os homens que acham que isto não os afeta. Afeta sim. Se formos pela parte da compaixão e da empatia, vai afetar homens que tenham filhas, sobrinhas, netas… Eu costumo dizer que nascer rapariga é estar 10 passos atrás na linha de partida de quando nasceu um rapaz. No Brasil esses passos são muito mais. A segurança de uma rapariga na rua em Portugal, não é a mesma que no Brasil. Tudo isto são coisas que nos parecem distantes, olhamos para as coisas como um filme e isso acaba por revelar o mundo onde estamos a viver e o que estamos a criar», continua.

Mas há mais… «Hoje o aborto, depois o cor de rosa e azul. Quem sabe se o Brasil não estará como na Polónia. A Polónia tem tido retrocessos. Na Polónia querem que uma mulher violada tenha o bebé à mesma (entre muitos outros exemplos que pode ler aqui). O governo retirou todos os apoios da fertilização in vitro. Todos os abortos espontâneos são investigados. Não sei se o Brasil vai chegar a este ponto, mas acredito que se deixarem, chega», finaliza.

 

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