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Histórias inspiradoras: Mulher com 10 doenças não desiste e lança negócio de sucesso

Filipa Rosa
publicado há 1 mês
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A Oficina dos Presentes é um sonho realizado de Catarina Poiares. Apesar de ter nascido com três malformações congénitas e de ser portadora de 10 doenças, sempre lutou pelo seu sonho: lançar um negócio de presentes personalizados. O site Crescer entrevistou a artista.

Catarina Poiares sempre sonhou em ter o seu próprio negócio, mais concretamente um atelier de presentes diferente do que havia no mercado, com um conceito de trabalho diferente, mas acima de tudo que fosse original e diferenciador no mercado português.

«Como costumo dizer nasci com o dom inapto de fazer e produzir presentes e acima de tudo para os trabalhos manuais e isso tem-se verificado ao longo dos 17 anos de existência do atelier, que foi pioneiro na conceção e produção de algumas peças que se tornaram como a imagem de marca do atelier», conta aquela que sempre teve jeito para trabalhos manuais.

Ao longo de 17 anos de existência do atelier, Catarina Poiares já recebeu inúmeras encomendas de clientes fiéis, que solicitaram o seu serviço para o seu casamento e, mais tarde, o batizado dos filhos. O balanço, segundo a artista, é muito positivo e o carinho das pessoas é a melhor recompensa. «Tenho a sorte e o privilégio de ter muitos clientes que o são desde o primeiro dia de existência do atelier e que recorrem ciclicamente ao mesmo em várias fases/etapas das suas vidas. Já me disseram que tenho umas mãos de fada e eu fico muito agradecida. Claro que ouvir essas palavras faz-me sentir realizada e é a garantia de que aquilo que delineei como sendo um atelier diferente no mercado português assim o é de facto», diz.

Os álbuns de fotografias são a imagem de marca d’A Oficina dos Presentes. Com vários modelos diferentes e cosidos à mão, qualquer um dos modelos é encantador para os seus clientes. É dos produtos mais vendidos e também especiais para Catarina. As molduras de ecografia também são das mais apreciadas. «O meu lema é sempre ir mais além do que já fui, ousar e inovar no desenvolvimento de novas coisas», afirma a artista.

Os problemas de saúde nunca a impediram de realizar sonhos

Garra, força, positivismo e persistência caracterizam-na na perfeição. Para Catarina, os seus problemas de saúde nunca a impediram de fazer nada do que gosta. «Sabe-se agora que nasci com três malformações congénitas todas osteoarticulares (uma em ambos os pés e pernas e duas na coluna, sendo que uma delas é também uma doença rara), depois possuo uma doença auto-imune e que é também uma doença rara e para completar o conjunto possuo seis outras situações de saúde que são consequência/efeito da doença auto-imune que tenho», explica aquela que nunca se rendeu às doenças.

«Tenho 10 problemas de saúde devidamente diagnosticados e possuo uma incapacidade e uma invalidez relativa de 81 por cento. Mas nunca os meus problemas de saúde, alguns deles existentes desde bebé, me impediram de fazer nada na vida. Em algumas situações foram eles a razão da força motriz para ter feito tanta coisa na vida.»

Apesar da sua força interior, nem sempre os dias são passados da mesma forma, até porque o seu corpo prega-lhe algumas partidas. «Claro que há dias em que me deito à noite muito bem e com imensos planos de trabalho para o dia seguinte e depois acordo com uma crise brutal e nem da cama me consigo levantar. Tenho de fazer terapêutica forte e ordens expressas do meu médico para ir para o “estaleiro”, ou seja, descansar e não fazer nada que me canse para mais rapidamente melhorar», conta.

Em 2001, quando Catarina montou o seu negócio sabia que ia ser difícil em algumas situações o facto de ter tantos problemas de saúde e de que forma os mesmos poderiam interferir na sua capacidade de trabalhar. «Por vezes, as crises e os períodos críticos das doenças que tenho não têm data nem hora marcada. Às vezes são muito incomodativas e tenho crises de um dia para o outro. Mas como já estou habituada às mesmas, já sei o que tenho que fazer e quando existe necessidade tenho grande facilidade de contactar os meus médicos e eles indicam-me o que tenho que fazer», relata.

«A partir de que os problemas de saúde aumentaram, ficou claro que a melhor opção seria o de trabalhar a partir de casa, algo que faço desde que o atelier foi criado em 2001 em regime de teletrabalho. Essa solução resultou que os meus níveis de cansaço, as complicações de saúde por causa das condições atmosféricas fossem diminuídas, porque quando as mesmas estão em estado muito adverso nem à rua me desloco, o ter complicações de saúde resultado do contacto com outras pessoas em grandes aglomerações (como o caso dos transportes públicos, onde o risco de apanhar infecções é elevado) fosse reduzido ao mínimo. Tenho a sorte de trabalhar com fornecedores em que eu faço as encomendas dos materiais e matérias-primas e as mesmas depois são-me enviadas por transportadoras e são-me entregues em casa. Só tenho que as carregar até à minha sala de trabalho.»

 

Infância marcada por bullying

Apesar de assumir que teve uma infância feliz, Catarina Poiares recorda uma fase triste da sua vida, quando sofreu de bullying na escola. «Sofri de bullying quando mudei de colégio, no 5.º ano de escolaridade. Foi um período muito complicado e duro ter que passar pelo que passei. Mas, naquela altura, anos 80, não era habitual falar-se abertamente de pessoas com deficiência e sobre deficiência. Havia coisas que nas aulas de Educação Física não fazia porque era contra-indicado para a minha situação. Eles hostilizavam e eram desagradáveis. Acredito que, hoje em dia, as situações de bullying nestas circunstâncias ocorram mais raramente…», recorda.

Andar de patins, fazer exercício nas aulas de Educação Física, não correr muito e ficar constantemente cansada chamavam a atenção dos colegas de turma, que aproveitavam a sua fragilidade para gozarem com a sua situação. Catarina encontrou uma justificação para o que lhe aconteceu. «As crianças e os meus colegas, provavelmente, não tinham na sua vida convívio com pessoas com deficiência, não sabiam o que é para uma pessoa com deficiência ter certas limitações, dificuldades e impedimentos de poder fazer certas coisas», sublinha, recordando a incapacidade da professora em guiar os seus alunos para que tratassem da colega portadora de deficiência física.

 

Que mensagem deixa a quem sofre com deficiência ou outras doenças e precisam de motivação para lutar pelos seus sonhos?

«Acima de tudo acreditem que são capazes, lutem por aquilo que gostam, que querem e nunca, mas nunca desistam. Por mais negros e feios que possam ser os dias, hão-de sempre melhorar. Sigam os vossos sonhos e mesmo que tenham medo, mergulhem de cabeça e sempre com o pensamento de que vão conseguir. Eu também quando comecei a definir o projecto d’A Oficina dos Presentes tive dúvidas, medos, receios, e no entanto mergulhei e acreditei que ia conseguir e hoje passados 17 anos não me vejo a fazer outra coisa que não seja o de ser artesã e de tornar reais os pedidos dos meus clientes. Eu não desisti, passei por problemas graves de saúde em 2014/2015 e fiquei com sequelas e, mesmo depois disso, o que me ansiava durante o período que estive de baixa médica foi o de acreditar que ia conseguir ultrapassar os problemas, superar e conseguir regressar ao trabalho que tenho há 17 anos a esta parte como artesã.»

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