Educação

Escolas de Empatia: Conheça o projeto que pretende combater o bullying através da empatia

Filipa Rosa
publicado há 3 meses
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Beatriz Camacho e Andreia Nogueira são as responsáveis pelo Escolas de Empatia, um projeto aplicado a escolas de 1.º ciclo que visa combater o bullying através da empatia, utilizando técnicas de educação não formal.

De acordo com dados da UNICEF, mais de 150 milhões de crianças dizem sofrer de bullying nas escolas e, globalmente, uma em cada três crianças diz ter experienciado bullying entre pares. Foi neste âmbito e com vista a fazer frente a esta problemática que surgiu o Escolas de Empatia, promovido pela associação PAR.

Semanalmente, uma equipa de profissionais vai à escola trabalhar com as crianças aspetos como inteligência emocional, auto-confiança e “consciência” do outro, alertando-os para a do bullying e capacitando-os para lutarem contra essa problemática. A par disto, e porque sabem que é um tema que deve mover todos, a equipa trabalha também em parceria com professores e pais, de forma a levar o projeto ainda mais longe.

O site Crescer falou com Andreia Nogueira, psicóloga e responsável pelo projeto Escolas de Empatia.

Como surgiu a ideia de lançar este projeto que pretende combater o bullying nas escolas?

Andreia Nogueira – O projeto Escolas de Empatia surgiu da adaptação do projeto europeu “Houses of Empathy”, um projeto internacional que a Associação Par – Respostas Sociais promoveu e aplicou em Portugal, em parceria com instituições de Itália, Irlanda do Norte e Espanha, que tinha como objetivo reduzir os índices de bullying entre pares em casas de acolhimento. Tendo em conta o impacto positivo do projeto nas casas onde foi implementado e, devido à problemática crescente de situações de violência entre pares nas escolas, surgiu a ideia da adaptação do programa para o contexto escolar. Estamos a desenvolver o projeto desde 2018 e a implementar agora o primeiro projeto piloto na escola Básica Teixeira de Pascoais em Alvalade, com o apoio da Associação de Pais.

Como funciona a intervenção nas escolas e quem poderá participar? Apenas alunos, ou também pais e professores?

A intervenção está a ser feita a turmas do 1.º ao 4.º ano, em regime de atividade de enriquecimento curricular, com sessões de uma hora e é direcionado apenas às crianças, mas também promovemos vários workshops para os pais e para as assistentes operacionais da escola para que todos saibam como reagir em situações de violência entre pares e, ainda como podem prevenir. Com os alunos, na escola, realizamos também pequenas tarefas que, posteriormente, levam para casa para que os pais/família também se envolvam, estreitando a relação casa/escola.

São os pais na maioria das vezes que procuram ajuda ou são as próprias crianças que têm essa iniciativa?

Neste caso específico, a iniciativa partiu da Associação de Pais da Escola Básica Teixeira de Pascoais. Contudo, desde que estamos a implementar o projeto, as próprias crianças compreendem que as nossas sessões são para falar sobre essas questões, tanto quando de facto ocorrem situações de agressividade, como quando um conflito se iniciou e elas não sabem como resolver de forma adequada. Nestes casos, por vezes, as atividades planeadas para aquela sessão ficam para mais tarde e tentamos abrir a conversa para todo o grupo, quando há essa vontade, e lançamos a discussão sobre atitudes e comportamentos alternativos à violência perante determinada situação. À medida que o projeto foi sendo desenvolvido, os pais sentiram não só curiosidade, como interesse e preocupação, procurando-nos várias vezes para compreenderem o nosso trabalho e explorarem novas formas de abordar esta problemática.

O que ambicionam alcançar?

Um dos objetivos que temos é implementar o projeto em mais escolas e alargar a crianças e jovens de outras faixas etárias. O nosso objetivo é que mais escolas apostem neste tipo de intervenções, para que a problemática do bullying seja discutida e para que se saiba agir nestes momentos, não optando apenas em iniciativas pontuais. É fundamental que as escolas e os pais/encarregados de educação compreendam a importância de trabalhar as competências pessoais e sociais das crianças, para além das curriculares. Perante esta problemática (e outras) há a possibilidade de prevenir e isso devo começar o quanto antes. Para tal, é importante estarmos mais tempo com as crianças e é essencial o acompanhamento em tempo letivo, para estarmos com as crianças no contexto e tempo onde surgem essas problemáticas, envolvendo assim também os professores e outros agentes educativos, que têm um papel fundamental.

Como têm as crianças reagido às vossas intervenções?

As crianças têm reagido bastante bem. É interessante ver como crianças tão pequenas conseguem ter respostas, às vezes, tão adultas e entender e tratar conteúdos que achamos que não lhes são familiares. Sentimos que se sentem com maior disponibilidade para abordar o que as preocupa neste âmbito e, acima de tudo, que podem pedir ajuda para resolver as situações e que é possível encontrar comportamentos alternativos àqueles que nos surgem numa primeira instância, resultantes da “emoção do momento”.

Já presenciaram comportamentos que indiquem que as crianças estão no caminho da mudança?

Já presenciámos vários, um deles é de uma aluna do 3.º ano que, após algumas sessões do programa, tinha pedido para fazer a chamada num determinado dia, mas havia outras crianças da turma a pedir. A aluna em questão disse-me, com as lágrimas nos olhos, que deveria ceder o seu lugar de fazer a chamada a um colega que estava a pedir, porque o tinha magoado com um comportamento nesse mesmo dia. Outro exemplo, é de uma aluna do 2.º ano que me procurou no final de uma das sessões para dizer que, apesar de não gostar de várias atitudes de uma amiga sua, que lhe tinha explicado isso sendo uma “pessoa-sol”. Para que compreendam o que ela quis dizer, nós apresentamos os vários estilos de comunicação, que é uma unidade abordada no programa, associando-os a imagens para que consigam perceber mais facilmente, e relacionamos a comunicação assertiva ao sol, designando as pessoas maioritariamente assertivas como “pessoas-sol”. Para uma criança do 2.º ano pensar sobre isto, e verbalizar com orgulho o comportamento que tinha tido, demonstra que o que vamos dizendo e fazendo vai deixando uma sementinha.

Quais as principais vantagens de trabalhar a empatia com os mais pequenos?

Se começarmos desde cedo a sensibilizar os mais novos para se colocar no lugar do outro, para o que as outras pessoas sentem e para as necessidades do outro, elas começam a tomar consciência das suas ações. As crianças nestas idades estão a aprender a ser e vão explorando vários comportamentos, sendo fundamental começarem desde cedo a ter esta sensibilidade, que vai permitir que consigam ajustar as suas atitudes. Apesar de poder gerar algumas questões sobre a compreensão das crianças tão novas por este tipo de conceitos, como já vimos elas têm competências para os compreender de uma forma prática, principalmente. Por isso é que as nossas sessões têm por base dinâmicas que as permita experienciar e que lhes apresente situações concretas, que muitas vezes parte dos exemplos que elas nos dão. A empatia é uma das competências base para nos relacionarmos de forma saudável com os outros e connosco próprios também. Trabalhar esta competência, junto de todas as outras que fazem parte do programa (emoções, comunicação, autoestima, entre outras) com as crianças, permite-nos contribuir para a prevenção de comportamentos desajustados e prejudiciais para a vida em sociedade.

Tencionam sensibilizar crianças mais velhas também?

O programa foi adaptado para crianças do 1.º ciclo, porque consideramos importante iniciar o desenvolvimento das competências pessoais e sociais e sensibilizar para esta problemática desde cedo. No entanto, um dos objetivos é alargar o projeto a crianças e jovens de outras faixas etárias, de forma a expandir esta resposta, que tem revelado resultados positivos até ao momento.

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