Histórias Inspiradoras

A enfermeira que disse “adeus” a Portugal para conseguir ter uma família numerosa

Filipa Rosa
publicado há 6 meses
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Cátia Godinho sempre teve o sonho de ser mãe e de ter uma família numerosa. Aos 35 anos, a enfermeira está prestes a ter o quinto filho… depois de três abortos. O site Crescer entrevistou-a. Conheça a sua história de vida inspiradora.

«Sempre foi o meu sonho ter vários filhos. No entanto, nos primeiros anos de casamento, essa ideia foi posta de parte devido à vida em Portugal, o trabalho com condições precárias, o nível de vida. Querer mais filhos foi uma das coisas que me levou a querer sair do país», começa por contar-nos aquela que foi mãe pela primeira vez há cerca de 12 anos de Duarte, irmão de Eva, de seis, Francisco, de três, e Dinis, de um ano e meio. Atualmente vivem todos em França.

Muito mudou em si com a maternidade. «Sou hoje uma mãe muito diferente da mãe que era em 2007, quando nasceu o meu primeiro filho. Ser mãe, fez-me querer ser mais e melhor. Procurar outras formas de estar na vida que me pudessem fazer realmente estar presente em termos emocionais para os meus filhos. Este acordar aconteceu durante a gravidez do Francisco, o meu terceiro filho já em 2014 e depois de uma depressão pós-parto em 2013. Acho que esse foi mesmo o ponto de viragem», refere a emigrante que tem um projeto sobre maternidade chamado A Nossa Mãe é Enfermeira.

Cátia Godinho, que pretende ajudar outras mães através do seu blogue, também teve as suas inseguranças normais do primeiro filho. «Era uma verdadeira mãe de primeira viagem, que levava à letra tudo aquilo que o pediatra me dizia, e ficava mesmo muito angustiada quando ele ficava doente. Mas noutros aspetos sempre sempre fui uma mãe mais descontraída, por exemplo sempre fui a favor das crianças se sujarem e nunca tive problemas em deixar o meu filho brincar na terra. A frase que eu mais dizia ao meu marido era “não há nada que a banheira e a máquina da roupa não resolvam”…»

Para Cátia Godinho, o grande desafio da maternidade é o autocontrolo. «Ter lucidez suficiente para perceber quando estou a perder o controlo e como reverter a situação. Nem sempre consigo, aliás ainda há muitas vezes em que não consigo, e acabo por gritar com eles mais do que gostaria nesta fase. O outro lado mais difícil é, sem dúvida, a privação de sono. Nenhum dos meus filhos até hoje dormiu minimamente bem nos primeiros dois anos de vida, à exceção do mais velho… Isso é uma prova de fogo à nossa sanidade mental!», afirma.

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E o melhor da maternidade? «Sem dúvida este sentimento de plenitude. Sentir-me completa, sentir que faço a diferença na vida deles, e acima de tudo a diferença que cada um deles faz na minha vida, a forma como a chegada de cada um deles me mudou, e a forma como a personalidade de cada um deles exige que me adapte e que trabalhe em mim. Este desafio constante. Os abraços apertados pelo dia fora. Os sorrisos e as gargalhadas. Ter a casa cheia! Cheia de gente e cheia de amor!», diz plenamente feliz.

Cátia com o marido Sérgio e os quatro filhos: Duarte, Dinis, Eva e Francisco.

A gravidez de gémeos e o aborto

Cátia Godinho viveu recentemente a pior experiência da sua vida quando perdeu um dos bebés da atual gravidez gemelar. Já tinha sofrido dois abortos antes do terceiro filho nascer e recorda-o com muita dor. «Foi muito difícil, porque, embora fossem perdas precoces, cada um daqueles bebés já tinha conquistado o seu lugar na família, já havia planos e um futuro desenhado na nossa cabeça e no nosso coração… Na verdade só ultrapassei efetivamente as perdas quando chegou o Francisco. Percebo hoje, que cada uma dessas perdas impulsionou grandes mudanças na minha vida, que provavelmente não teriam ocorrido de outra forma, mas no momento é difícil compreender o sentido…»

Desta vez, a enfermeira confessa que foi ainda pior. «Primeiro, porque tudo foi uma surpresa. Quando soubemos que eram dois levámos uns dias a assimilar a informação. Depois aceitámos o desafio com todo o nosso amor. O meu marido só me dizia: “Nem acredito que vamos ser pais de gémeos!”. Começámos a fazer planos, a incluir os gémeos em tudo o que planeávamos! E eu só dizia para mim mesma: “Já tivemos a nossa dose de perdas, se a vida nos presenteou com dois, não há-de ser para voltarmos a passar por isso”…», recorda.

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E Cátia manteve-se sempre confiante e tranquila. Até que o pior aconteceu. «Foi um grande golpe, fiquei muito revoltada. O facto de ter outro bebé que estava bem, por um lado deu-nos alento para seguir em frente, por outro havia o medo de o perder também. Depois, a cada ecografia somos confrontados com o outro bebé, pequenino, mas que ainda ali está. Quando vemos fotos de gémeos, é inevitável não nos lembrarmos e não sentirmos ainda esta dor. Lembro-me de ter dito a uma colega que perdeu ambos os bebés, que nas minhas outras perdas consegui ultrapassar quando engravidei do Francisco, mas, desta vez, não é assim tão linear, não posso simplesmente dizer: “Bom, engravido de gémeos e vai ajudar a atenuar a minha dor”…»

Neste momento, o bebé está a crescer bem e saudável, o que é um alívio para o casal.

Mãe à beira de um ataque de nervos

Ser mãe não é fácil e isso já toda a gente sabe. Mesmo para Cátia Godinho, que encara a maternidade com descontração, há momentos de muita loucura, principalmente na casa de uma família numerosa. «Quando o mais novo, o Dinis, era recém-nascido, exigente como só um recém-nascido sabe ser, não dormia… O Francisco, com menos de três anos, ciumento como só um benjamim que perdeu o seu lugar de bebé da família sabe ser… O Duarte a entrar na pré-adolescência e a Eva a querer marcar a sua posição de única menina da família. E eu exausta», conta aquela que, se pudesse, desaparecia por uns tempos. «Houve muitos dias em que me apetecia fugir, essencialmente por sentir que não estava a conseguir gerir tudo, miúdos, casa, etc. Mas tive muito apoio de amigas próximas e do meu marido, e dizia para mim mesma que esta fase iria passar. E passou. E agora vem outra e eu só peço que, desta vez, possa ter um bebé que durma bem, mas tendo em conta os nossos antecedentes, a esperança é remota…»

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Conselhos para educar vários filhos

Cátia Godinho não tem segredos para educar uma família numerosa, mas revela qual é o seu truque. «Descomplicar, sem dúvida. Por vezes, complicamos demasiado situações simples. Um copo de leite derramado é só um copo de leite derramado. Mas, a verdade, é que, por vezes, isso é o gatilho que faz disparar um carregamento de explosivos que se foi acumulando. Hoje já tenho essa capacidade de descomplicar a maioria dessas situações, mas sou humana e também tenho dias em que essa tarefa de descomplicar é um grande desafio!», confessa.

«Outra coisa é parar de querer ter tudo controlado, arrumado e limpo. Com muitos filhos, isso é uma tarefa quase impossível. Mas esta necessidade de controlo é, muitas vezes, o meu calcanhar de Aquiles e, sem qualquer dúvida, aquilo que preciso ainda de trabalhar. E claro, o mantra: vai passar. Porque tudo passa. E a infância deles passa rápido demais para nos preocuparmos com tanta coisa que nos desgasta, mas não nos acrescenta muito…»

Que mensagem quer dar a quem não planeia ter apenas um filho? «Que vamos acompanhando o desafio. Muitas mães me dizem que só com um já é um desafio tão grande, que não sabem como conseguirão gerir outro. Ou que me dão os parabéns por conseguir gerir uma família tão grande. Mas a verdade é que cada fase tem os seus desafios. Eu com um senti-me muitas vezes completamente desarmada. A minha parentalidade não é mais fácil ou mais difícil do que a de uma mãe que só tem um ou dois filhos, porque vamos crescendo com o desafio e temos uma excelente capacidade de adaptação! E o amor é a base de tudo.»

Ser enfermeira ajuda-a a relativizar mais as coisas?

Sim e não. E Cátia Godinho explica porquê. «As coisas simples sim. Enquanto o meu marido quase entra em pânico com uma gastroenterite, eu relativizo. Mas depois há tudo o resto. Tudo aquilo que vejo no hospital, doenças realmente graves. Se dissesse quantas vezes os meus filhos já tiveram doenças graves na minha cabeça, não acreditava… Por isso é extremamente importante para mim ter um pediatra que compreenda estas angústias de quem trabalha com situações muito complicadas, e me ajude a relativizar e a voltar a pôr os pés no chão», afirma. «Em termos emocionais ajuda a relativizar quando chegamos a casa de um turno difícil e percebemos a sorte que temos. A saúde deles é mesmo uma riqueza inigualável.»

O sonho de aumentar (ainda mais) a família

Cátia sempre sonhou em ter seis filhos e quase viu esse sonho realizado. Porém… «Penso que ficaremos por aqui. Tenho imenso medo de falhar, por isso procuro sempre evoluir, aprender e crescer com eles. O Duarte, o mais velho, abre caminho porque é o primeiro a pôr-me à prova. Muitas vezes sinto que é injusto para ele, mas a vida é mesmo assim, tenho a consciência de que faço o melhor que posso, o melhor que consigo a cada momento», assume a enfermeira.

«Todas gostávamos de ser mães perfeitas, mas já Donald Winnicutt, pediatra e psicanalista, dizia que as crianças não precisam de mães perfeitas, mas sim de mães suficientemente boas. Ele afirmava que, na verdade, se existisse uma mãe perfeita, ela seria prejudicial ao bom desenvolvimento do seu filho! Por isso, sim, acredito que com amor e respeito por nós, pelos nossos instintos e por eles, todas conseguimos ser essa mãe suficientemente boa que eles precisam!», termina Cátia… da melhor forma.

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