Saúde

Endometriose: A doença que se confunde com dores menstruais

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 10 meses
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Endometriose é uma doença tão dolorosa quanto desconhecida. São muitas as mulheres que sofrem desta patologia e algumas delas nem sabem que são portadoras deste (grave) problema.

Segundo o site da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, esta é uma doença com tamanha expressão que é hoje reconhecida como uma doença social.

O seu impacto na sociedade é tremendo e é considerada como um grave problema de saúde pública. Isto reflete-se em horas de absentismo no trabalho ou subprodução, por dor incontrolável.

A vida social e sexual é, pelos mesmos motivos, afetada. E são múltiplos os casos de divórcio e separações pela constante perda de qualidade de vida destas mulheres, que leva a conflitos conjugais.

Viver com endometriose

 

Vânia Custódio tem 39 anos anos e soube que sofria de endometriose há 12. «Ao contrário da maior parte das pessoas, descobri que tinha endometriose como resultado da anatomia patológica de uma operação que fiz de urgência ao apêndice, em abril de 2006. Tive uma dor de barriga insuportável, tão forte que me deitei no chão da redação (era jornalista) por não conseguir suportar as dores. Essa dor já me tinha dado outras duas vezes mas acabava por passar e eu não compreendia o que era. A verdade é que, até hoje, ainda não sei o que a motivou. Mas, durante a operação ao apêndice, os médicos perceberam que tinha muito tecido estranho espalhado pelos órgãos e fizeram recolhas de amostra. O resultado da anatomia patológica, quase um mês depois, revelou que sofria de endometriose. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa e demorei muito tempo a perceber a palavra e, até, a conseguir pronunciá-la», começa por nos explicar esta mulher, que, numa conversa sincera, contou ao site Crescer como é viver com esta patologia.

Desde que ficou menstruada, sempre teve muitas dores, mas para os médicos, era uma situação perfeitamente banal. «Os dois primeiros dias de menstruação eram insuportáveis, com dores de barriga e de cabeça, mas sempre que ia ao médico ou ginecologista recebia aquele ar de desvalorização de quem acredita mesmo que as dores fazem parte da condição feminina e de que não há muito a fazer. Até alguma impaciência de quem tem outros pacientes para atender e não está para ouvir queixas desse tipo.», explica, continuando: «Recomendavam o costume: analgésicos, chás, sacos de água quente, tentar fazer algum exercício. E, de vez quando, até o revirar de olhos de quem pensa que estamos a dramatizar uma situação que não é assim tão grave.»

 

Uma doença que não é abordada da maneira necessária

 

Algumas mulheres andam de especialista em especialista até serem diagnosticadas com endometriose. E Vânia também andou de médico em médico. Mas o diagnóstico não chegou… «Tendo em conta que desde os 13 anos, quando tive o período pela primeira vez, que me queixava de mais dores que a generalidade das minhas amigas, e que só recebi o diagnóstico aos 27 anos, podemos contar que foram cerca de 14 anos até perceber que havia um problema real por trás das queixas sempre desvalorizadas. E fui a muitos médicos. Mas, depois de tanta resposta sempre no mesmo sentido, começamos a duvidar dos sinais que o nosso corpo emite e passamos a questionar a nossa capacidade de assimilar a dor por oposição a todas as outras mulheres que vivem sem queixas», desabafa.

Esta doença é confundida com dores menstruais, o que faz com que muitas mulheres que possam sofrer deste problema, não cheguem a saber que, efetivamente, a têm. «Há um total desconhecimento sobre a endometriose. Felizmente, nos últimos anos, tem-se começado a ouvir falar nesta doença com mais regularidade, mas isso também acontece porque mais mulheres se têm visto a braços com esse diagnóstico. E sim, concordo que muitas mulheres não sabem que sofrem desta doença que é bem mais do que dores menstruais. Muitas vezes oiço relatos e histórias de amigas e conhecidas e consigo identificar sinais que podem indicar que talvez aquela pessoa também sofra de endometriose. Infelizmente, o diagnóstico é complicado e, curiosamente, sempre que alerto as pessoas para conversarem sobre essa possibilidade com médicos informados, costumo deparar-me com resistência. Talvez por saberem que é uma doença tão complicada», garante Vânia, que não tem medo em afirmar que «muitas mulheres fogem da eventual confirmação desse diagnóstico».

 

O que se fazer para alertar as mulheres?

 

Para Vânia, o desconhecimento das mulheres em relação a esta patologia está também relacionado com a falta de empenho dos especialistas. «Quando digo que os médicos a que recorria desvalorizavam os meus sintomas é exatamente por falta de informação. Ainda há muitos médicos que não consideram sequer essa hipótese. Não me atrevo a dizer que não conhecem a endometriose porque pode ser excessivo dizer que um médico não conhece uma doença. Mas é o que parece muitas vezes.»

Assim sendo, é complicado encontrar formas de alertar as mulheres «para uma questão para a qual os próprios médicos não estão cientes da sua importância. Num mundo ideal, a ciência e medicina estaria tão evoluída que, além de já haver uma cura, as crianças também seriam educadas desde pequenas para saberem identificar sinais de que nem tudo estaria bem com o seu corpo. Como não vivemos no mundo ideal, é importante passar a mensagem de que as dores menstruais não são normais. Se uma mulher se sente impedida de fazer a sua vida normal porque está menstruada, deve procurar um médico e não desistir até encontrar uma resposta para perceber o que se passa», refere.

Até porque há muitos temas ainda tabu. E do que está relacionado com mulheres, ainda mais! «Há também este problema de se tentar esconder o que se sente. Falar neste tipo de problemas ainda é um não-assunto, um tema tabu de que não se fala abertamente sem que surja algum constrangimento, sobretudo que houver homens por perto. Os problemas femininos ainda não são encarados com a naturalidade que seria desejável. Há ainda um enorme caminho a trilhar. Mas cabe a cada uma de nós a luta pela mudança de mentalidades e de comportamentos. Pelo bem de todas», diz, perentória.

 

Endometriose é sinónimo de infertilidade?

 

Esta doença afeta 10 a 15 por cento das mulheres em idade reprodutiva e é uma das mais comuns causas de infertilidade.

Em 80 por cento das mulheres com endometriose o sintoma principal é a DOR, 20 por cento apresentam primeiro infertilidade, associada ou não a dor posterior e consequentemente à perda de qualidade de vida.

É ainda controverso o papel das formas mínimas e ligeiras de endometriose na infertilidade. Ainda que a doença possa não ser a responsável direta pela infertilidade, a dor nas relações sexuais (dispareunia) pode representar um papel determinante.

As formas moderadas e graves são reconhecidas causas de infertilidade, se não forem tratadas por cirurgia. A dor é, no entanto, o sintoma mais grave de endometriose. A sua intensidade interfere com a qualidade de vida da mulher. Apresenta-se em geral sob diversas formas, dependendo da extensão e da localização da doença.

 

Como é lidar com a questão da infertilidade?

 

Para Vânia Custódio, o alerta da questão da infertilidade «infelizmente, aconteceu tarde demais». «A questão foi sempre referida como um problema a longo prazo, com que, eventualmente teria de lidar, noutras circunstâncias e quase num cenário pouco provável. Houve uma médica que, quando passei dos 35 anos, começou a insistir nessa questão, mas nunca me deu toda a informação que teria sido obrigatória. Soube tarde demais que talvez devesse ter congelado óvulos, por exemplo. Na verdade, penso que quando tive o diagnóstico confirmado por anatomia patológica aos 27 anos, os médicos me deviam ter encaminhado – obrigatoriamente – para consultas de infertilidade. Isso não aconteceu e considero que é um erro de negligência médica», assegura, revoltada.

E essa revolta acontece diariamente. Quando pensa nas consequências da endometriose, mas, acima de tudo, quando sente os efeitos da doença. «Eu tento sobreviver aos piores sintomas com ibuprofeno 600, que já quase não consegue responder às minhas necessidades. Aguento o mais que posso, para tentar que o corpo não se habitue ao efeito do comprimido, mas as dores são excruciantes e é mesmo muito difícil aguentar estoicamente quando estou nos dias mais difíceis».

Ainda assim, Vânia está, aos poucos, a tentar arranjar ‘soluções’ para o seu dia-a-dia. «Tenho tentado mudar a minha alimentação, graças a um conselho da última médica a que fui e, de facto, tenho sentido alguma melhoria na minha qualidade de vida. O leite é mesmo um veneno que me incha dolorosamente a barriga e me deixa, em pouco minutos, como se estivesse grávida de quatro meses. Mas tudo isto é uma descoberta por tentativa-erro. Há muitas condicionantes que afetam a minha qualidade de vida no dia-a-dia. Já tentei yoga, acunpuctura, óleo de onagra e chá de unha e gato e uxi-amarelo. Há sempre muitas mezinhas e, por vezes, até ajudam a aliviar os sintomas. Mas não chega», garante.

Não há cura, mas há tratamento

 

É com esta realidade que muitas mulheres se deparam para o resto da vida. A endometriose «é ainda tabu» para os portugueses e, na verdade é uma doença sem cura.

Ainda assim, há tratamento para aliviar os sintomas. Algo que Vânia nunca fez. «Nunca fiz qualquer tratamento para a endometriose. Todos os médicos quiseram que eu tomasse a pílula cerazette que impede o ciclo menstrual e, logo, trava o desenvolvimento da doença. Sempre me recusei porque, numa operação que fiz na Maternidade Alfredo da Costa desenvolvi uma varicoflebite numa perna e sempre tive medo do impacto de um tratamento como o da pílula na minha saúde. Nenhum médico contrariou este meu argumento e tenho vivido sem fazer qualquer tratamento.»

Viver com endometriose

 

Viver com endometriose é, como muitas mulheres garantem, «um verdadeiro pesadelo». «É difícil e angustiante. Além da falta de qualidade de vida, das dores diárias – tantas e tão diferentes: cabeça, barriga, corpo, pernas – há sempre um cansaço generalizado muitas vezes incompreendido por quem nos rodeia e o impacto de tudo isto na nossa auto-estima. Ou porque a nossa vida social deixa de existir por falta de comparência e ausência de compreensão de quem não entende o impacto da doença na nossa vida ou porque a endometriose nos deforma o corpo e não conseguimos rever-nos na falta de energia que nunca nos larga. A roupa deixa de nos servir, não conseguimos decidir o que vestir porque a qualquer momento a barriga pode inchar tanto que não aguentamos as calças na cintura, as pernas ficam pesadas e cansadas. A endometriose entra na nossa vida e impõe-se para sempre. É uma convidada indesejada que nos leva os amigos, a auto-estima e os sonhos. É uma merd* de uma doença que, nos piores momentos, nos tenta matar. É só nos resta tentar ser sempre mais fortes do que ela», garante.

 

Conselhos a mulheres que sofram do mesmo problema

 

Vânia deixa conselhos a todas as mulheres que passem por este problema ou que tenham sintomas que possam levar à endometriose. «Eu ainda tenho esses sintomas e pioram de dia para dia. Nunca deixem de procurar uma resposta. Sentir dores não é normal. É importante procurar a causa e não desistir até a encontrar. É também importante que as mulheres em idade fértil façam consultas de fertilidade e, mesmo que não sejam alertadas para essa questão, que considerem a possibilidade de congelamento de óvulos. Podem vir a descobrir tarde demais que o deviam ter feito. E podem ter o azar de ninguém vos avisar para essa possibilidade na altura certa», finaliza.

Para esclarecimento de todas as dúvidas é crucial conversar com o seu ginecologista e expor-lhe as suas questões.

 

 

Fonte: Site CUF , IVI e  Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose

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