Saúde

Dificuldade em engravidar? Saiba quais são as causas e descubra as soluções

Filipa Rosa
publicado há 6 meses
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São muitos os casais que têm grande dificuldade em engravidar. Mas afinal quais são as causas para a infertilidade feminina e masculina? E o que fazer quando a angústia aumenta e a esperança diminui? A especialista em fertilidade Catarina Júlio esclarece todas as dúvidas.

«De uma forma simplista, para que ocorra uma gravidez é necessário que o ovário da mulher produza óvulos (“ovos”), que haja espermatozóides com quantidade e qualidade, que as trompas (que fazem a ligação entre o ovário e o útero) estejam permeáveis (para haver comunicação) e que o útero esteja recetivo para receber o embrião, o futuro bebé. Se alguns destes fatores essenciais estiver comprometido poderemos ter infertilidade», começa por explicar.

Infertilidade feminina

As grandes causas de infertilidade feminina, segundo indica a especialista, são o fator ovulatório, fator tubário, fator uterino, endometriose e insuficiência ovárica precoce (menopausa precoce).

Infertilidade masculina

No caso dos homens, os fatores são, obviamente, diferentes. «As causas de infertilidade masculina são alterações na quantidade ou qualidade (sobretudo motilidade e morfologia) dos espermatozóides. Estas podem ser devidas a alterações a nível da produção de espermatozóides (genéticas, inexistência de testículos nas bolsas escrotais, infeções, radiação, quimioterapia, fatores ambientais) ou ao nível da secreção dos espermatozóides (ejaculação precoce, disfunção sexual, obstrução dos ductos que fazem o transporte, tumores, fibrose quística)», revela.

Principal fator de fertilidade é a idade da mulher

Catarina Júlio garante que há forma de aumentar a fertilidade. Quer saber de que forma? «Antecipando o projeto parental. O principal fator de fertilidade é a idade da mulher. À medida que a idade da mulher aumenta, sobretudo após os 35 anos, a probabilidade de engravidar quer espontaneamente, quer com recurso a tratamentos, vai diminuindo», afirma.

Atualmente em Portugal, segundo nos informa, a idade média da mulher no nascimento do primeiro filho são 30 anos. «Nas últimas décadas, temos assistido a um adiamento do projeto parental, por diversos motivos, com implicações graves ao nível da fertilidade», diz aquela que acredita que adotar um estilo de vida saudável é outra boa forma de aumentar a fertilidade.

«Há que evitar a exposição ambiental a tóxicos que possam comprometer o potencial reprodutivo dos casais, como é exemplo o tabaco, álcool, determinadas medicações (sobretudo sem prescrição médica) ou tóxicos industriais. O exercício físico moderado também é benéfico, sobretudo no controlo da obesidade.»

Qual o processo para perceber quem é infértil no casal?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, infertilidade define-se como «uma doença do sistema reprodutivo traduzida pela incapacidade de obter gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares e sem uso de contraceção». Desta forma, segundo a especialista, todos os casais que estão a tentar conceber há mais de um ano, sem sucesso, devem ser encaminhados a uma consulta de infertilidade especializada. «Este encaminhamento deve ser mais cedo se a mulher tiver mais de 37 anos ou se pelo menos um elemento do casal tiver antecedentes de alguma condição que aumente a probabilidade de infertilidade, nomeadamente tratamentos de quimioterapia ou radioterapia prévios, endometriose grave, antecedentes de doença inflamatória pélvica, ciclos menstruais irregulares (com grandes períodos sem menstruar) ou cirurgias ginecológicas ou urológicas prévias», refere.

«Nesta consulta especializada vamos avaliar paralelamente a mulher e o homem. No caso da mulher, além das rotinas pré-concecionais (analises “gerais” e ecografia pélvica), fará análises hormonais que nos permitem avaliar o funcionamento do ovário. A avaliação da permeabilidade tubária pode ser feita por histerossalpingografia (“rx com contraste das trompas”) ou por histerossonografia (através de exame ecográfico)», explica Catarina Júlio.

«A avaliação inicial do homem consiste na realização de um espermograma, em que é possível avaliar a quantidade, a mobilidade e a morfologia dos espermatozóides.»

Na grande maioria das situações o estudo fica completo com apenas estes exames, que podem ser realizados no prazo de um mês. Apenas situações mais complexas, diagnosticadas após esta avaliação inicial, necessitarão de estudo complementar que poderá ser mais moroso, segundo avança a especialista.

«Cerca de um terço das causas de fertilidade são femininas, um terço são masculinas e um terço são mistas. Em cerca de 15 por cento dos casos não é identificada a causa.»

Há muitos casos em que o casal só consegue ter um filho. Porquê?

Um dos fatores que pode dificultar ter um segundo filho é exatamente o aumento da idade da mulher, que diminui a fertilidade desse casal. Segundo Catarina Júlio, «a maioria das causas de infertilidade não impossibilitam totalmente uma gravidez espontânea, pelo que muitos dos casais inférteis conseguem obter uma gravidez, mas podem ter dificuldade na obtenção de uma segunda gravidez.»

Que soluções existem atualmente?

Em medicina reprodutiva existem diferentes tratamentos disponíveis, que de forma personalizada e de complexidade crescente, são sugeridos ao casal:

  • Indução da ovulação
  • Inseminação intrauterina
  • Fertilização in vitro (FIV- “bebé proveta”)
  • Microinjecção (ICSI)
  • Doação de embriões ou gâmetas (óvulos e/ou espermatozóides)
  • Diagnóstico genético pré-implantatório (avaliação dos embriões previamente à transferência com seleção dos “saudáveis”);
  • Em algumas situações pode estar indicada a cirurgia.

«Podemos dizer que atualmente existe solução para todas as causas de infertilidade. Em Portugal apenas não há solução em casos de inexistência de útero, que só poderia ser ultrapassada com recurso a gestação de substituição», explica a especialista. «A escolha do tratamento depende de múltiplos fatores, entre os quais, a causa de infertilidade, idade da mulher e eventuais tratamentos prévios.»

«Nas últimas décadas houve um considerável avanço nas técnicas de procriação medicamente assistida, inclusive no que respeita à comodidade dos doentes. Têm-se desenvolvido protocolos terapêuticos mais curtos, com necessidade de menor número de injeções, assim como o desenvolvimento de sistemas de administração da medicação mais simples e cómodos», refere.

«Mas a questão física dos tratamentos, frequentemente não é a mais limitativa. A maioria dos casais consegue uma gravidez após um ou dois tratamentos, mas não raramente tem uma vivência tão negativa do processo, que acaba por desistir. Após um diagnóstico de infertilidade e durante os tratamentos, o casal sofre um turbilhão de emoções, que muitas vezes é limitativo para atividades do dia-a-dia.»

Para Catarina Júlio, é «muito importante» que estes casais se sintam apoiados, nas várias vertentes, por uma equipa constituída por diferentes profissionais. «O apoio psicológico é fundamental, para ajudar o casal a lidar com o diagnóstico, tratamento e eventuais insucessos. Se o casal acreditar que o objectivo será conseguido, vai vivenciar este processo de forma mais tranquila», diz-nos.

Infertilidade em Portugal e na Europa

Apesar de haver poucos estudos da realidade portuguesa, estima-se que a taxa de infertilidade seja idêntica à da Europa, cerca de 15 por cento. «As diferenças são sobretudo relativas às políticas de saúde e apoios a estes casais, que condicionam o número de tratamentos efetuados. Em Portugal, os tratamentos efetuados em Centros Públicos são gratuitos e a medicação é comparticipada a 69 por cento. No entanto, existem várias limitações (no Sistema Nacional de Saúde), que impossibilitam o acesso de muitos casais a estas técnicas. A principal, é o limite de idade da mulher que é 42 anos para inseminação intra-uterina e 40 anos para FIV/ICSI. Outras limitações são o número de ciclos que podem ser realizados (máximo três ciclos completos), assim como restrições ao acesso dependendo do número de filhos do casal», informa a especialista.

Catarina Júlio acrescenta ainda que «muitos dos casais sem acesso a tratamentos em centros públicos, não têm capacidade económica para recorrer a clínicas privadas, ficando limitados na possibilidade de serem pais.»

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