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Dia Mundial do AVC: «Não sou mais quem era, mas serei sempre quem fui»

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publicado há 3 semanas
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Diana Wong Ramos tem 42 anos e três filhos. Em 2011 sofreu um AVC e ao site Crescer escreveu um testemunho emocionante de quem perdeu o chão, mas recuperou com uma força inimaginável.

Leia o seu testemunho:

Tudo começou com uma fortíssima dor de cabeça. Achava eu que era uma «simples» enxaqueca, provavelmente consequência da anestesia que tinha levado quatro dias antes, por causa de uma cirurgia (programada) a uma hérnia no umbigo.

Na noite anterior tinha sido acordada de madrugada com um telefonema: Angélico Vieira, o famoso cantor/ator, tinha sofrido um acidente de viação e a sua vida estava em perigo… Era urgente deslocar equipa de jornalista e fotógrafo para o Porto! Tínhamos de colocar imediatamente a notícia na edição online da revista Nova Gente! Os pensamentos sucediam-se em catadupa e eu longe de imaginar a gravidade do que estava a acontecer comigo…

Dia 26 de junho de 2011, curiosamente data do meu 12.º aniversário de casamento. A dor de cabeça era tão intensa, as náuseas e o mal estar tão persistentes, que não consegui arranjar forças para me vestir e almoçar com a família. Era um domingo… Passei o dia enfiada no quarto às escuras, pensando que a cama resolveria tudo. «Estou sem forças para andar… a minha mão parece estar esquisita…», queixei-me ao meu marido, que estranhou também a assimetria no meu rosto (boca ao lado).

Por volta das seis da tarde levantei-me da cama para ir à casa de banho. O chão «fugiu-me» dos pés, caí, queria gritar por ajuda, mas as palavras saíam estranhas, sem sentido. Estava a sofrer uma convulsão! Ouvia o meu marido ao telefone com o INEM, enquanto ao mesmo tempo tentava a todo o custo impedir-me de enrolar a língua e sufocar! Finalmente percebi que algo anormal estava a passar-se comigo e pela primeira vez tive medo, muito medo de morrer…

Tinha 34 anos, um casamento feliz, dois filhos (de nove e seis anos) saudáveis e a nível profissional as coisas também estavam bem encaminhadas. Tinha sido recentemente promovida a editora e achava ser insubstituível na redação da revista. Tola! Tinha as prioridades completamente trocadas e acabei por pagar um preço demasiado alto para percebê-lo…

Voltei a repetir as crises convulsivas no hospital. Entretanto «apaguei», provavelmente sedada, e só me recordo de voltar a mim na Unidade Cerebro-Vascular do Hospital de São José, para onde fui transferida em risco de vida. «O prognóstico é muito reservado», disseram ao meu marido.

Perdi os movimentos dos membros superiores e inferiores, só conseguia abrir o olho direito e tinha dificuldade em engolir. Durante muito tempo precisei de ajuda para alimentar-me, fazer a minha higiene e até para limpar as lágrimas não conseguia fazê-lo sozinha… A cabeça parecia pesar uma tonelada! Deixei de conseguir sentar-me, muito menos levantar-me e caminhar. Tive de reaprender praticamente tudo, como um bebé. Mas agarrei-me à vida, ao amor e à enorme vontade de estar presente no crescimento dos meus filhos.

O trabalho de reabilitação começou ali, naquela cama do São José, na qual passei os dez primeiros dias após ter sofrido uma Trombose Venosa Cerebral. Um AVC (Acidente Vascular Cerebral) especial, porque não foi arterial mas sim venoso, que me fez passar a encarar a vida, esta segunda oportunidade de viver, de uma maneira completamente diferente.

Quando regressei ao Hospital Fernando da Fonseca, já tinha recuperado alguns movimentos na mão direita, mas estava longe de ser novamente independente. Foi durante o internamento no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão que renasci. Tal e qual uma criança, deixei de usar fralda e deixaram de me «lavar à gato», na cama, com toalhas húmidas… Voltar a sentir a água do chuveiro a escorrer pelo corpo, apesar de sentada numa cadeira de rodas e de necessitar de ajuda para me ensaboar, devolveu-me alguma dignidade.

Ser sobrevivente de AVC é também isso: é ser capaz de retirar das contrariedades preciosos ensinamentos.

Aos poucos, dia após dia, semana após semana, sempre com o apoio da minha família, fui buscar forças que desconhecia ter e recuperando a minha autonomia… 18 meses depois voltei a conduzir. Que grande felicidade! Um carro adaptado à minha nova condição física (hemiparésia dos membros superior e inferior esquerdos), mas que me fazia sentir novamente no comando! O meu marido, que tinha sido uma verdadeira fada do lar (!) durante os meus longos meses de internamento, começava aos poucos a tranquilizar-se, respirando de alívio pois o pior já tinha passado!

Eis que em junho de 2013, precisamente no dia do meu querido Santo António, a família volta a «estremecer», mas desta vez de alegria: um bebé vinha a caminho! Para mim era um milagre, um presente de Deus por todo o sofrimento que nós tínhamos passado. Tive de alterar a medicação, fazer injeções de enoxaparina na barriga todos os dias, durante nove meses… Foi uma gravidez de alto risco, mas abençoada.

A Maria nasceu em janeiro de 2014, a tempo de conhecer o avô (meu pai) que viria a falecer três meses depois com cancro… A vida é mesmo assim. E a minha ganhou um novo fôlego depois do AVC!

Encorajada por muitas pessoas que diziam ver na minha história um exemplo fantástico de superação, e movida por uma enorme vontade de ajudar outros sobreviventes a darem a volta por cima, abracei o projeto de constituir a Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos (www.portugalavc.pt). E tem sido como mãe a tempo inteiro, e no trabalho voluntariado, que encontrei um novo sentido para o meu dia-a-dia.

Hoje sinto-me grata, muito grata por não ser mais quem era.

 

 

 

Texto: Diana Wong Ramos
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