Histórias Inspiradoras

Dia de Mudança: O projeto de uma jovem que teve um linfoma aos 25 anos

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 3 meses
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Chama-se Gabriela Fonseca, tem 27 anos, é natural da Guarda e cedo descobriu que o rumo e as prioridades da vida podem mudar de repente.

Aos 25 anos o destino pregou-lhe uma rasteira. «Tudo aconteceu demasiado rápido. Quatro dias antes da Páscoa de 2016, quinta-feira, chego a casa após um longo dia de trabalho e percebo que tenho um caroço – como na gíria se diz – debaixo do maxilar direito. Comento com o meu namorado, mas não dou grande importância. Podia ser uma infeção, podia ser uma inflamação, mas de certeza que não seria nada de especial. No entanto, ele começou a crescer, a crescer e vou ao médico. Cerca de duas semanas depois estou a fazer uma biópsia. A sua origem poderia ser bacteriana ou cancerígena, tendo vindo a verificar-se esta última opção. Após a notícia sou internada no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) passados dois dias. O meu caroço era um ovo da Páscoa bem especial», começa por contar ao site Crescer.

Gabriela foi diagnosticada com um Linfoma de Burkitt no estádio IV. «Ninguém está preparado para isto. O meu linfoma era um cancro agressivo e estava supra e infra diafragma com envolvimento medular. “Vou morrer?”, foi a pergunta, enquanto os meus sonhos, os meus objetivos, a longevidade se perdiam em cada lágrima. Saí daquele consultório com a certeza absoluta que iria morrer, embora o médico me respondesse que a probabilidade de eu morrer era a mesma que ele tinha de sair do consultório e ser atropelado. Eu não sabia o que era um linfoma, mas sabia que era mau», revela.

«O que deveria ter sido um fim, revelou-se, afinal, um recomeço»

«Estar em stand-by com 25 anos é assustador», garante. Até porque o dia em que soube do diagnóstico trouxe-lhe o confronto direto com a morte e as perguntas que nem sempre têm resposta. «Ninguém pode prometer-te que há salvação», diz.

Mas há sempre uma luz ao fundo do túnel. «A Marta, uma sobrevivente oncológica, seguida pela minha médica e que estava ali viva… foi aquela pessoa que me fez voltar a acreditar que se calhar eu não ia morrer porque é um exemplo vivo, que está à tua frente e diz ‘estou aqui’», refere.

Mas a segunda luz também chegou e foi o ponto decisivo para que Gabriela lutasse “como se não houvesse amanhã”. «A segunda luz chegou quando a médica me diz que existe uma “fórmula mágica”: 50 por cento os médicos e 50 por cento os doentes. Prometi que não desistiria, que me manteria psicologicamente equilibrada e que construiria os meus 50 por cento. Os médicos garantiram que se responsabilizaram pela eficácia da outra metade.»

As mudanças físicas

E assim foi! Mas apesar de tudo isso, as mudanças no corpo fizeram com que Gabriela se isolasse do mundo. «No primeiro tratamento isolei-me, chorava, não queria ver “aquela gente careca”. Não me sentia doente e não queria ver a doença a nu. Até que um dia acordei e pensei: “Se morreres, como queres que as pessoas se lembrem de ti?”. A atitude que estava a ter era já de uma desistente, de uma pessoa que não acredita. Estava a entregar-me ao poder da doença. Porém, essa não era eu. O cancro estava em mim, mas a minha essência também», diz.

E continua a explicar como o recomeço se deu. Foi a partir daí, que aconteceu o seu Dia de Mudança: «Podia morrer, mas se morresse queria que as pessoas soubessem que eu tinha lutado porque eu própria merecia lutar por mim. E percebi que estava na hora de o vencer. Que estava na hora de lutar pela minha vida e não há luta mais sentida do que essa. Porque é um privilégio lutar por nós próprios e nem todos os seres humanos têm essa oportunidade. “Tens um linfoma, Gabi”. Aí tudo mudou. Mudam as prioridades, as rotinas, tudo se altera com o surgimento de um cancro. E assim foi o meu Dia de Mudança».

«Durante quase um ano não houve sexo»

«Um cancro exige muito. Então, sendo mulher, exige ainda mais». Desde que soube que tinha um linfoma, as mudanças foram muitas. Foi viver para Coimbra, abandonou a atividade profissional e foi obrigada a deixar a Chanel, sua cadelinha, em casa dos pais do namorado.

A seguir, vieram as mudanças físicas… «Os longos cabelos foram cortados e após o primeiro tratamento rapados. Engordei muito e tive que enfrentar o espelho. Gostar de mim fora dos ditos padrões de beleza e com um cancro. Não é fácil. Mas aprender a  gostar de mim, de novo. Ou, sentir-me simplesmente mulher. No entanto, nunca tive vergonha de mim ou medo do julgamento porque me aceitei», revela.

Gabriela com o namorado, Rodrigo

 

O outro ponto a destacar foi o facto de ter deixado de «ser namorada.» «O Rodrigo permaneceu a meu lado e foi, sem dúvida, o meu grande apoio. Mas, durante quase um ano não houve sexo, não houve beijos escaldantes, não houve uma relação normal», garante.

Até que surge a questão da fertilidade. «Ter um cancro e ainda ser confrontada com a possibilidade de ficar infértil não é fácil. É mesmo duro. Lembro-me que cheguei mesmo a pensar será que não há uma boa notícia. O meu tratamento seria tão agressivo que existia a possibilidade de ficar infértil, mas fiz a preservação da fertilidade através da recolha de ovócitos. Para além disso, deixei de comer algumas coisas, de frequentar alguns sítios e de ser internada de quinze em quinze dias e o CHUC ser a minha segunda casa».

«O doente oncológico precisa de sentir amor»

Foi seguida no Hospital Universitário de Coimbra, no serviço de Hematologia em regime de internamento. «Fiz quatro ciclos, subdivididos em parte A e B», conta. E no que diz respeito aos efeitos secundários… «Fui uma sortuda! Os efeitos secundários dependem muito de paciente para paciente». 

E os efeitos que Gabriela teve foram previstos após o fim dos ciclos: a anemia, a falta de plaquetas e de glóbulos brancos. «Foquemo-nos na anemia e nas plaquetas. Sabem qual é a única solução? As transfusões. Nunca fui dadora, pelo medo das agulhas, a falta de tempo e até de conhecimento. Pergunto-vos o que aconteceria se todos arranjassem tais desculpas e não o doassem?! Certamente, a minha recuperação teria sido muito mais difícil», assegura.

Para pessoas que passem por problemas idênticos ao de Gabriela, o apoio familiar é imprescindível, apesar de não existir «nenhum manual que ensine as pessoas a lidar com o cancro.» «Ser namorado, familiar ou amigo de alguém que sofre de cancro exige também uma grande capacidade de aceitação e de luta. Geralmente, temos uma ideia errada do que significa apoiar. Socorremo-nos dos clichés, outros param com o medo das palavras e há quem prefira entender o doente (…) a conclusão a que chego é que o doente oncológico precisa de sentir amor», garante.

«Há muito preconceito»

«A minha família sofreu muito com o meu cancro. Lembro-me de quando o meu avô com mais de 90 me viu careca. O sentimento de impotência, de injustiça e de sofrimento no seu olhar… Mas, sempre me senti amada por eles e naquele núcleo não havia preconceito», continua a contar.

Mas… existe preconceito para com os doentes oncológicos? «Infelizmente há. Fui vítima dele. Decidi não usar peruca e, muito menos, lenços. Senti todo o tipo de olhares e reações na rua. Sim, eu tinha cancro. Mas sim, eu tinha o mesmo direito de andar na rua assim como qualquer cidadão que tem celulite, que é tatuado ou que é magricelas. Porque no fundo todos temos algum detalhe que se andasse ao descoberto seria alvo de preconceito. O segredo é aceitarmo-nos. E para a sociedade o segredo é informar-se.»

E houve momentos em que quis desistir? «Sim, antes de iniciar o tratamento!» E a razão era simples: «Eu não me sentia doente, por isso não fazia sentido sujeitar-me a algo que não me dava garantias de ficar curada. Pode parecer incongruente, mas era mesmo assim que eu pensava. Mas, depois dessa fase desistir nunca mais foi uma opção».

«O Pós-Quimio é menosprezado pela maioria das pessoas»

As palavras «estás limpa» trouxeram a esta jovem um misto de missão cumprida e início de uma nova era no campo do auto-conhecimento. «Falar sobre essa etapa é falar de reinícios, de avanços e talvez da redescoberta do mundo, de mim e de tudo o que me rodeia. O Pós-Quimio é menosprezado pela maioria das pessoas, ou seja, se já não há cancro estás ótimo. Pois bem, infelizmente não é bem assim. Imaginem que num ano o vosso foco e toda a vossa vida é a cura. De repente, atingem esse objetivo. E ainda mais de repente, retomam toda a vossa vida. Parece simples, não é? Até poderia ser, se o medo não começasse a dar sinais da sua existência. Foram muitos os medos que a minha mente já criou: o medo de traçar objetivos, de conduzir, de sair sozinha à rua, de planear o futuro e o mais inquietante, de voltar a ter cancro…», diz.

E depois do «estás limpa», qual foi a primeira coisa que a jovem quis fazer? «Foi comer sushi… e o prazer que a refeição me deu é impossível descrevê-lo em palavras…»

O blogue O Dia de Mudança

Com tudo o que lhe aconteceu, Gabriela criou um projeto: O Dia de Mudança. «A criação do blogue coincidiu com a debilidade do corpo, ou seja, o corpo necessitou de tempo, tempo para recuperar dos ciclos. Face a esta necessidade, o tempo trouxe-me a fome emocional, o que motivou o aumento de peso. Seguindo-se a necessidade de ocupar esse tempo com atividades que não me colocassem em risco, por exemplo de infeções. Depois, chegou a motivação e os elogios da minha postura que provocaram a criação desta plataforma com o objetivo de partilhar o quotidiano de uma doente oncológica e os desafios que enfrenta. E um dia… criei mesmo em outubro de 2016. O objetivo foi a vontade de ajudar os outros a sofrer menos do que ela eu quero que a pessoa abra o meu blogue e sinta esperança, que consiga identificar-se ou acreditar que o melhor está mesmo para vir. Porque todos temos um dia de mudança, o meu foi um linfoma mas mudares de estado civil, de País, ou de profissão… esse pode ser o teu».

O blogue foi criado já há uns anos… desde então o que mudou em Gabriela e qual o feedback dos leitores tanto no blogue como no Facebook? «Acredito mesmo que o linfoma não apareceu só porque sim. Hoje, olho para trás e sinto que comunicar sobre o cancro é a minha missão de vida. Preenche-me. Sou mesmo feliz em cada projeto. Mudou a minha atitude enquanto doente oncológica, cidadã, blogger e mulher. Sinto que a vida me deu uma segunda oportunidade para viver e desta vez, não posso falhar. Tenho a oportunidade de recomeçar e fazer a diferença no mundo oncológico, onde o preconceito, os mitos, o medo e a morte aumentam o sofrimento. O feedback tem sido surpreendente. Tenho doentes oncológicos que me leem enquanto fazem a sua quimioterapia, tenho pessoas que mudam a sua opinião sobre o cancro, tenho a sorte de criar emoções positivas às pessoas enquanto falo sobre o cancro sem tabus», continua.

«Cancro, a história que nos une»

«Estávamos no final do ano de 2018 e um dia pensei que os principais desejos são idênticos aos sentimentos presentes numa batalha contra o cancro. Contactei o “Fundo IMM Laço” e onze mulheres oncológicas, e apresentei-lhes a minha ideia. Todas disseram que sim e avançámos. De forma resumida, doze doentes oncológicas revelam os seus desejos para 2019 através da lente do fotógrafo Daniel Vieira. Cada desejo contém, não só uma história de vida difícil, mas também um testemunho de coragem, determinação e força de viver», explica. 

«Se há projeto do qual me orgulho é este, um projeto que une, finalmente, o cancro à cura. Este é um projeto que está a superar as minhas expectativas e acredito que será o meu grande projeto de 2019. As pessoas são o melhor deste projeto. Neste projeto estão profissionais de saúde da área unidos com doentes oncológicos e juntos desmistificam o cancro tanto no digital como em espaços físicos.»

As protagonistas do projeto “O Cancro que nos une”

 

O projeto já foi apresentado no digital e agora «chegou o momento de o levar até às pessoas que precisam mesmo dele. O projeto estará de norte a sul do País e a primeira exposição ocorrerá já no próximo dia 25 de fevereiro, pelas 12 horas no CHUC. Tinha que ser ali o ponto de partida», revela.

Dia 7 de março estará no Hospital Santa Maria em Lisboa, 6 de abril no Hospital da Guarda e dia 8 de abril no IPO de Coimbra. As exposições estarão patentes durante três a quatro semanas nos locais.

No final, Gabriela pretende fazer um leilão dos quadros para o Fundo IMM laço.

Conselhos a quem tiver a passar pelo mesmo que a Gabriela passou

Gabriela não deixa passar a oportunidade de dizer a quem esteja doente, que «acreditar é a palavra de ordem.»

«Acreditar na cura, estar ciente das dificuldades que possam surgir para se fortalecer e as ultrapassar; ser positivo e acreditar que é apenas uma fase; não ter qualquer preconceito em pedir ajuda e viver cada dia que passa como uma vitória; ouvir os profissionais de saúde da área e seguir os seus conselhos; falar com quem já passou por situações idênticas; não deixar, dentro do possível, de fazer a sua vida. Sei, acredito, que as coisas acontecem por uma razão. Agarra(-te) a (à) Vida!», finaliza.

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