Educação

Chumbar ou não até ao 9.º ano? A Crescer perguntou e os pais respondem!

Andreia Costinha de Miranda
publicado há 12 meses
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O ensino está em “alvoroço” com o último debate parlamentar em que o primeiro-ministro, António Costa fez com que a Assembleia se dividisse. Direita e esquerda não se entendem no que aos chumbos até ao 9.º ano dizem respeito. Mas os pais têm algo a dizer!

«Queremos fazer aquilo que é mais difícil»

Deverão os alunos passar sempre até ao final da antiga escolaridade obrigatória ou deverá o ensino continuar como até então? O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, em entrevista à agência Lusa, garante que a proposta do Executivo é passar a acompanhar mais de perto os alunos com maior dificuldades.

«Não queremos administrativamente diminuir as retenções. Queremos fazer aquilo que é mais difícil, que é agarrar em cada um dos nossos alunos, principalmente aqueles que estão em meios sócio-economicamente mais desfavorecidos, com famílias com menos capacidade, para os ajudar no seu trabalho», explicou Tiago Brandão Rodrigues à publicação já citada.

A não concordância dos encarregados de educação

Desta forma, a Crescer conversou com alguns encarregados de educação sobre este tema. Afinal, deverão os alunos chumbar ou não até ao 9.º ano? As respostas são claras.

Rita Moutinho é mãe de Afonso Rodrigues, de 11 anos de idade. O menino frequenta o 6.º ano e a mãe é clara no que a esta proposta do Governo diz respeito. «Isto é só uma forma de os alunos não chumbarem até ao 9.º ano e daí em diante ser uma catástrofe. Não concordo com esta medida, de maneira nenhuma», garante. 

Para esta encarregada de educação não há justificação para a aplicação desta medida, até porque «a única coisa que os alunos têm a ganhar é não chumbarem o ano, independentemente de o merecerem ou não.»

«Isso irá retardar um problema ao nível da aprendizagem»

«Se as matérias não foram apreendidas pelos alunos da forma que era pretendido, por que razão transitam eles de ano? Isso irá retardar um problema ao nível da aprendizagem, apenas e só, na minha opinião. Se dermos o exemplo da Matemática, se não houver boas bases na matéria que está para trás, como poderão os alunos saber resolver determinados problemas?», questiona Rita.

António Costa garante «que não se tratam de passagens administrativas, mas de ajudar a superar as dificuldades.» Que medidas as escolas deveriam tomar para a redução dessas mesmas dificuldades? Esta mãe é perentória.

«As dificuldades vão continuar a estar lá, mesmo que eles passem de ano e não mereçam. Os alunos não são todos iguais, nem todos têm a mesma facilidade de aprendizagem, e fazê-los passar de ano quando merecem chumbar não os vai ajudar em nada porque as dificuldades vão aumentando à medida que os anos escolares vão aumentando também», diz. 

«Ora, se eles não têm bases suficientes, de que lhe vale avançar? Uma das medidas que poderia ser introduzida nas escolas é as aulas de apoio às várias disciplinas para aqueles alunos que têm mais dificuldades. Sabendo, à partida, que nem todos os alunos têm o mesmo ritmo de aprendizagem, desta forma poderia-se individualizar um pouco mais, dando oportunidade às crianças com dificuldades», garante.

«Isto é muito prejudicial no amadurecimento deles enquanto pessoas»

Patrícia Sousa é mãe de Catarina, de 11 anos. A filha frequenta o 7.º de escolaridade e esta encarregada de educação também não concorda com esta medida. «Estar a passar alunos que não atingem os objetivos mínimos prejudica-os mais do que os beneficia. À medida que os anos passam, o nível de dificuldade do ensino aumenta, por isso é essencial que tenham as bases bem estruturadas. Se não as tiverem, não vão conseguir avançar ao mesmo nível que os outros, o que lhes poderá causar elevados níveis de frustração», realça.

Mas para Patrícia existem outros “perigos”. «Se passarem sempre, independentemente de atingirem ou não os objetivos, cria-se a sensação de que não precisam de se esforçar para obter resultados. E, na minha opinião, estando a falar de crianças e adolescentes, isto é muito prejudicial no amadurecimento deles enquanto pessoas», garante.

«Isto não é ajudá-los a superar dificuldades, mas sim “mascarar” a realidade»

Questionada sobre as medidas que as escolas deveriam tomar para a redução dos chumbos até ao 9.º ano, Patrícia não é parca em palavras. «Passar de ano alunos que não atingem os objetivos não é ajudá-los a superar dificuldades, mas sim ‘mascarar’ a realidade», alerta.

E continua… «Obviamente que defendo que as escolas têm a obrigação de tomar medidas para aumentar o aproveitamento escolar, seja através de uma maior atenção dos professores ou apoio escolar extra-aulas, mas nunca passando os alunos que não conseguem ou não se esforçam por atingir os valores mínimos exigidos. Se isso acontecer (outro perigo) pode levar até ao sentimento de injustiça por parte de outras crianças. Podem pensar: “Se ele não se esforça e passa de ano, por que é que eu tenho de me esforçar? O resultado é o mesmo”».

«O Governo gasta, anualmente, cinco mil euros por cada aluno que chumba. Assim, poupa»

Carolina tem 13 anos e anda no 8.º ano. Susana Gaspar, a mãe, é mais uma das encarregadas de educação que não concorda com a medida proposta pelo Governo de António Costa. «Não acho que favoreça o sucesso educativo, muito pelo contrário», alerta.

E a razão é simples: «Irá fomentar os chumbos dos alunos e o desinteresse pelos professores em lecionar. Para quê ensinar? Para quê aprender? O que se sabe é que o Governo gasta, anualmente, cinco mil euros por cada aluno que chumba. Assim, poupa. E não se investe no futuro e na formação dos jovens», anuncia.

Na realidade, se esta medida for avante, Susana acha que «ninguém vai ganhar.» Isto porque «um aluno que seja menos bom, irá continuar coxo. Talvez sem o interesse do professor que, a certa altura, já o deu como perdido. Mais: um dia mais tarde, quando tiver de concorrer à faculdade, irá ter, igualmente, dificuldade em mostrar as suas capacidades. O bom aluno pode não ver as suas capacidades diferenciadas dos restantes e também ficar desanimado», garante.

E as escolas o que deverão fazer? «Considero que todas as escolas deveriam ter apoio obrigatório para todos os alunos com dificuldades, avaliação contínua e um sistema de avaliação mais prático, que não fosse apenas com testes», finaliza.

«É uma medida que não beneficia, de todo, o sistema de ensino em Portugal»

Nuno Pereira é pai dos irmãos Maria e Francisco, de 14 anos. Os gémeos frequentam o 9.º ano e estão prestes a cumprir a antiga escolaridade obrigatória. A opinião deste encarregado de educação é a mesma que a das mães que participaram neste artigo: «É uma medida que não beneficia, de todo, o sistema de ensino em Portugal e, em última análise, não beneficia em nada os alunos com mais dificuldades».

«A questão central é que os alunos, ao transitarem de ano sem impedimento, irão enfrentar, a médio prazo, mais dificuldades do que benefícios. Se, em determinado ano letivo, revelaram dificuldades, no seguinte as dificuldades serão ainda mais notórias. É uma bola de neve», salienta.

E como forma de contornar os chumbos nas escolas portuguesas, Nuno acha que «deve existir um apoio mais individualizado aos alunos.»

«Essa ajuda extra a alunos com mais dificuldades deve ser feita logo que são identificados os problemas. Resolver os problemas no final do ano (não chumbando os alunos), só revela as deficiências desta medida, que não ajuda ninguém a superar dificuldades. As medidas de apoio aos alunos existem e devem ser aplicadas pela escola, sempre que se revelar necessário. Transitar de ano sim, mas com mérito, tanto da escola e dos professores, como do aluno», conclui.

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