Saúde

AVC na grávida: Por que ocorre e quais os sintomas?

Redação
publicado há 2 semanas
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Leia o artigo de opinião da Professora Patrícia Canhão, do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria e Vice-presidente da Sociedade Portuguesa do AVC.

O acidente vascular cerebral (AVC) pode surgir em qualquer idade. E em qualquer fase da vida, incluindo durante a gravidez ou após o parto, período conhecido como “puerpério”. Ter um AVC é um acontecimento trágico, mas sofrer um AVC durante a gravidez ou após o nascimento de um bebé é particularmente dramático.

Felizmente não é um acontecimento comum. Mas o risco de as mulheres grávidas terem um AVC é superior ao risco de mulheres da mesma idade que não estão grávidas (incidência de 11 a 34 AVC’s por 100 000 partos comparativamente a 10 AVC’s por 100 000 mulheres em idade reprodutiva). O risco de AVC é maior na fase final da gravidez e no puerpério, mas pode ocorrer em qualquer altura. Cerca de 10 por cento dos AVC ocorrem antes do parto, 40 por cento pela altura do parto, e 50 por cento no período pós-parto, por vezes depois da alta.

Por que é que ocorrem AVCs na gravidez?

Na gravidez e puerpério ocorrem alterações no organismo que, sendo próprias de uma gravidez normal, podem predispor a AVC. Dentro dessas mudanças incluem-se alterações hormonais, cardiovasculares, dos fatores de coagulação e do tono dos vasos cerebrais.

Os fatores de risco para AVC na mulher grávida são os mesmos da população geral: hipertensão arterial (HTA), tabagismo, diabetes, dislipidemia, uso de drogas ilícitas; problemas cardíacos que aumentam a formação de coágulos (trombos) cardíacos que se podem libertar na circulação e alojar-se nos vasos cerebrais (embolias); alterações do sangue, hereditárias ou adquiridas, que promovem a formação de trombos.

Há outros fatores de risco com particular importância na mulher grávida: idade superior a 35 anos, raça negra, drepanocitose, e antecedentes de enxaqueca com aura. Existem ainda fatores inerentes à gravidez e que aumentam o risco de AVC: parto por cesariana, HTA induzida pela gravidez, infeção pós-parto, pré-eclampsia ou eclampsia.

Que tipo de AVCs podem ocorrer na gravidez?

As diferentes mudanças surgem durante a gravidez, no seu curso normal ou por complicações que ocorram, podem aumentar o risco de AVC por oclusão de artérias cerebrais (AVC isquémicos), por oclusões de veias ou seios venosos cerebrais (tromboses venosas cerebrais) ou por rotura de artérias cerebrais (AVC hemorrágicos).

Um dos principais problemas que pode surgir na mulher durante a gravidez é a HTA. Mulheres com valores de tensão arterial normais antes da gravidez podem desenvolver HTA muito grave durante a gravidez, e que pode estar na causa de AVC. A pré-eclampsia é uma forma muito grave de hipertensão durante a gravidez. Pode provocar edemas (“inchaços”) da face e mãos, cefaleias, perturbações visuais, parto prematuro. Na sua forma mais grave, pode provocar convulsões e AVC isquémico ou hemorrágico.

Quais os sintomas de alerta para se suspeitar de um AVC?

Na mulher grávida ou no puerpério, podem haver outras causas que não sejam vasculares para o aparecimento de sintomas neurológicos. No entanto, apontam-se os seguintes sintomas e sinais de alarme para suspeita de complicações vasculares cerebrais:
– assimetria da face (“boca ao lado”), falta de força de um dos lados do corpo (braço ou perna);
– dificuldade em falar ou dificuldade em compreender o discurso;
– alteração confusional, sonolência;
– cefaleia súbita, de intensidade máxima na altura de instalação;
– cefaleia persistente, intensa, agravando na posição de deitada ou com o esforço, sobretudo se acompanhada de alterações visuais persistentes ou progressivas.

Na presença de alguns destes sintomas, existe urgência na avaliação. Se a doente não estiver internada pela ocasião do seu aparecimento, deverá de imediato ligar o 112, e explicar os sintomas para uma rápida orientação.

Considerações especiais na grávida com AVC

A grávida ou puérpera deve ser encaminhada para centros especializados em AVC. Aí, devem ser decididos os exames ou tratamentos a realizar. Qualquer que seja a intervenção, é necessário acautelar a saúde da mãe, em primeiro lugar, mas pensando sempre na segurança e bem-estar do feto ou bebé.

Existem aspetos particulares na grávida relacionados com a selecção dos exames de diagnóstico. Esta selecção terá em consideração o risco de exposição a radiações, campos magnéticos ou o uso de produtos de contraste, que poderão ser nefastos para o feto.

Há pouca evidência sobre a eficácia ou segurança dos tratamentos do AVC agudo na grávida, como o uso de fibrinolíticos ou de intervenção endovascular. No entanto, dada a elevada eficácia destes tratamentos na população em geral, a indicação para estes tratamentos deverá ser equacionada na mulher grávida.

Uma vez ultrapassadas as primeiras horas, haverá um longo caminho a percorrer de tratamentos e reabilitação. É necessário um plano de intervenção em múltiplas áreas, não se esquecendo o apoio emocional e psicológico que a doente (e família) possa precisar.

Estas múltiplas intervenções deverão permitir que a grávida, ou puérpera, recupere ao máximo a sua autonomia não só como pessoa, mas também como futura mãe.

Texto:  Professora Patrícia Canhão, do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria e Vice-presidente da Sociedade Portuguesa do AVC

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