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As oscilações de mãe

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publicado há 2 semanas
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Ana Reis, autora do blogue Meninas da Mamã, escreveu um texto sobre as oscilações que uma recém-mamã tem. Um testemunho a não perder.

Ser mãe é viver em dicotomia desde o primeiro instante. É alternar um estado de felicidade extrema com o de tristeza profunda e sensação de “mas porquê eu?!” E isso acontece desde que o bebé nasce, ou às vezes, ainda antes.

E nada nos prepara para o nível de oscilação que as nossas hormonas são capazes de atingir no pré e, sobretudo, no pós-parto. E se à medida que vamos tendo mais filhos acho que as oscilações atenuam, nunca passam por completo.

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No meu caso, com a Maria João, demorei cerca de um ano a voltar ao normal. Sim, leram bem, um ano! E não estou a falar da parte física, que essa nem tem comentários, estou a falar mesmo a nível interior, da minha essência, de mim enquanto pessoa.

Na verdade, verdadinha, acho que depois de se ter um filho nunca mais se volta a ser a mesma pessoa. Nem faria sentido, porque se acabámos de passar pela maior das provações, com tudo de bom e de mau que isso tem, se ganhámos um novo sentimento, que nunca mais nos irá abandonar para todo o sempre, que é o do amor incondicional, que vem de mãos dadas com outro que é o da culpa, se sentimos a felicidade e o medo mais avassaladores de sempre, como poderíamos voltar a ser a pessoa que éramos antes?

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Simples, não podíamos! E, da minha parte, ainda bem que assim é. Sou hoje incrivelmente menos egoísta e mais agradecida do que era antes de ser mãe. E não, ter sobrinhos não é a mesma coisa, a menos que se faça o papel de mãe. Sou da opinião de que eles não precisam de sair de dentro de nós para sentirmos isso, como acontece com uma criança que é adotada, por exemplo, mas precisam de ser só nossos e de estar à nossa guarda para sentirmos isso.

Dizem que o tempo cura tudo e, neste caso, é bem verdade. Tive um pós-parto terrível da Mafalda, já falei disso aqui, mas ultrapassei com relativa rapidez e em pouco tempo voltei à vida normal. Recomecei a trabalhar muito cedo, tinha muita ajuda em casa e dos avós, por isso, nunca tive muito a sensação de me estar a privar fosse do que fosse ou de estar diferente.

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Desta vez, com a Mimi, não tive um pós-parto depressivo, mas tive meses muito angustiantes. Com a Mafalda tão pequena e a precisar tanto de atenção, com menos ajuda em casa e sendo a Mimi uma bebé exigente como foi, que desde os primeiros dias só estava bem ao colo, muitas vezes tive vontade de fugir. E muitas vezes chorei e me descabelei, já nem sei bem porquê.

A mim, as hormonas têm a capacidade de me tolher o discernimento. Fico muito menos prática, ativo o complicómetro e deixo-me invadir por um sentimento de incapacidade e de impotência que me fere e que me dói na alma. Isto aliado a uma dificuldade enorme que tenho em pedir ajuda, como se isso me fizesse sentir diminuída, do género «quiseste tê-las, agora aguenta, a obrigação é tua» levaram-me a um ano de uma Ana que não sou eu.

Esta falta de mobilidade e esta constante dependência dos outros desde que a Maria João nasceu é algo que me incomoda e à qual ainda não me consegui adaptar. Mas olhando para trás, a verdade é que tenho a certeza de que a grande maioria dos meus dramas tiveram muito a ver com a fragilidade emocional que uma mulher tem depois de ser mãe.

Ou então sou só eu que sou dramática…

Texto: Ana Reis, autora do blogue, Meninas da Mamã

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