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Anafilaxia: Sobreviver sem condições

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publicado há 1 ano
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«Ver um filho a morrer nos nossos braços é desesperante! É sufocante!» Leia o forte testemunho de Sílvia Marques, do projeto O Alergias. A mãe de um menino com alergias severas critica o Governo pela falta de atenção a este problema.

 

Anô … Ana …  ANAFILAXIA!

Anafilaxia, quase tão difícil de pronunciar como as palavras: Horóscopo ou Overdose.

Anafilaxia ou choque Anafilático é, por definição, «uma reação alérgica grave e de rápida progressão que pode provocar a morte». Até aqui tudo ok… Basta dar uma espreitadela na Wikipedia e têm lá todo um palavreado pomposo, explicações e fontes médicas credíveis.

Eu que sou só uma Mãe, vou explicar-vos em palavras muito leigas o que é a Anafilaxia para mim.

A Anafilaxia é o que o meu filho e muitas crianças por este país fora sofrem quando, são expostos a um alimento, a um fármaco ou até mesmo uma picadinha de bicho, que tanto se veem agora no verão, basta serem alérgicos e para já ainda não sabemos tudo. Parece complexo, mas é muito fácil de compreender. É uma manifestação GRAVE, SEVERA e muitas vezes FATAL! É assim coisa para matar uma criança em poucos minutos, o perigo pode estar numa pequena dentadinha num alimento, no toque ou até mesmo no simples respirar.

É verdade! Basta inalar uma partícula proibida que já temos a vida em risco… até parece difícil de acreditar! Em bom português, a criança começa a ficar vermelha, os olhos a inchar, a boca, língua e num instante as vias respiratórias estão obstruídas, começa a falta de ar, depois a paragem respiratória… e o resto vocês podem calcular. Muitas vezes acontece a paragem cardíaca, o coma e infelizmente ainda há quem morra. Será culpa da Anafilaxia?!

Felizmente existe a Adrenalina! (yuppie!!!) Adrenalina guardada dentro de uma caneta, as tão famosas Canetas de Adrenalina. Ora a Adrenalina é a única coisa que salva a vida num episódio de Anafilaxia. Repito SALVA! São poucos os minutos para administrar este fármaco milagroso. A adrenalina é «quase» como a Naloxona, que é um fármaco/droga que salva a vida em caso de overdose, antagonista de opioide e com efeitos semelhantes à morfina (fonte: Wikipedia).

SAIBA MAIS: Anafilaxia: Quais os sintomas e os tratamentos que podem salvar a criança?

Falando em overdose, quase podemos ridiculamente comparar alguns aspetos (e não querendo entrar por um mundo que me é praticamente desconhecido). Ou seja, uma criança alérgica tem de ter sempre consigo autoinjetores de adrenalina, é obrigado a injetar-se em caso de emergência, na maioria das vezes não tem outra hipótese. Uma criança alérgica corre risco de vida, tal como quem consome droga, em proporção mas não em escolha!

Deixando as comparações de lado que de nada me servem, vou apenas focar-me nas diferenças, porque eu sou a favor da igualdade de direitos. Sim, sou mesmo! Uma caneta de adrenalina é cara, muito cara, 58 euros valor na embalagem, depois simpaticamente custam um pouco mais de 30 euros, se obtidos por receita, e dão para uma utilização que em muitos episódios não resolve, por vezes não chega uma, nem duas, nem três, e às vezes as malandras falham… mas não há dinheiro para mais… só temos uma!

Já a droga não, há para todos os gostos, da mais barata à mais cara, há a branca a castanha, há para todos os bolsos e nunca falham, é tiro e queda! A adrenalina é difícil de encontrar, corremos farmácias de lés-a-lés e nem uma caneta, resta-nos o distribuidor… Bolas, também em rotura. Afinal a única coisa que salva o meu filho… não consigo ter acesso. Já a droga não, é vê-la passar de mão em mão e em cada canto, basta estar atento…

Quanto à droga não sei, mas de adrenalina percebo eu e sei que a validade é muito curta, de repente olhamos e ‘ups’ já não a podemos usar, terá validade a droga?

Veja a nossa reportagem especial e continue a ler o testemunho mais abaixo:

Senhores deputados, Sr. Ministro da Saúde, Exmo. Primeiro-ministro e Sua Exa. Sr. Presidente da República, estarei eu a viver num mundo ao contrário? Parem! Acharei eu incorretamente que as prioridades estão trocadas? Revolta-me que o único medicamento que salva o meu filho, eu tenha que pagar demais, que seja caro, que esgote e que tantas vezes nem o tenha… Que República esta será a minha? Preocupada em dar condições para que se matem com drogas, quando deveriam estar a canalizar meios para salvar! Sim, SALVAR os nossos filhos e até mesmo aqueles que consomem drogas e que não precisam de Adrenalina.

Vocês, que se juntam na Assembleia, vivem num mundo que não é o meu. Vocês que decidem as minhas leis, as leis do meu país, não vivem a minha realidade. Não decidem com a vida de um filho nas mãos. Mas decidem as nossas vidas! E posso ser um pouco cruel, mas decidem como elas acabam…

Bem sei que todos têm direitos e devem ter condições dignas, e nos devemos basear na dignidade humana. Bem sei que todos temos direito a ser tratados como pessoas. Bem sei que isso é a sociedade e, saber viver nela nem sempre é consensual… Mas os nossos filhos não escolheram nascer Alérgicos, poderão outros escolher não se drogar? Poderão vocês ajudar-nos? Ao meu filho, por exemplo, a ter acesso a Adrenalina Gratuita e a outros a ficarem longe das drogas?

LEIA TAMBÉM: Alergia alimentar MATA! Não alimente nem toque em crianças sem os pais saberem

Ver um filho a morrer nos nossos braços é desesperante! É sufocante! Dá-nos vontade de arrancar do nosso peito, com as próprias mãos, o nosso coração para o trocar e dá-lo ali na hora, para não o ver parar nunca. O meu filho, vezes e vezes, já deixou de respirar e saber que a seguir vem tudo o resto… só quero abaná-lo, apertá-lo e gritar «POR FAVOR AGUENTA, LUTA E VIVE»… Que exista sempre uma caneta de adrenalina por perto, sim, é o que eu peço sempre, que não falhe e que a ajuda venha rápido.

Aos senhores governantes, que nunca tenham de se levantar dessas vossas cadeiras da Assembleia para correr com um filho em braços, quase morto, porque vos falhou a última caneta.

É desgostoso, mas só existe uma coisa neste meu país a que o meu filho Alérgico tem direito gratuitamente… a uma pulseira Vermelha!

PS: Está tudo bem, o bicho é duro de quebrar.

 

 

 

Texto: Sílvia Marques, do projeto O Alergias

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