Gravidez

Amamentação na gravidez? Sim, é possível!

Redação
publicado há 1 mês
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É um tema pouco falado e sobre o qual não há consenso entre os próprios profissionais de saúde, quer sejam pediatras, obstetras, médicos de família ou enfermeiros. Em todos estes grupos temos profissionais contra, outros a favor e ainda alguns renitentes.

A enfermeira Cátia Godinho, do projeto A Nossa Mãe é Enfermeira, reuniu alguns testemunhos de mulheres que retratam bem esta falta de consenso sobre a amamentação na gravidez. Ela própria está a passar por essa situação e foi por isso que o site Crescer quis saber mais sobre o assunto.

Leia o texto que nos escreveu:

«A médica de família já era contra a amamentação prolongada, então grávida… Ui, foi difícil!»

«O meu obstetra diz que se ele gosta, faz ele bem ainda mamar, desde que não haja nenhuma complicação que justifique parar, tudo bem!»

Se é verdade que a gravidez NÃO implica um desmame forçado, excepto em situações pontuais, também é verdade que há ainda muitos profissionais que o sugerem como prática corrente e independentemente das variantes de cada situação.

«A obstetra sempre apoiou. A pediatra quando soube que estava grávida sugeriu que desmamasse para ter “leite suficiente” para o recém-nascido.»

«Nem obstetra, nem médico de família se opõem. O pediatra disse que mesmo que eu consiga desmamar, agora durante a gravidez, é muito provável que ela volte a pedir quando o mano nascer.»

Há algumas questões frequentes que precisam ser desmistificadas, sendo que algumas delas são muito utilizadas como critério pelos profissionais de saúde para sugerirem o desmame.

Será que a amamentação na gravidez aumenta o risco de aborto numa gravidez comum (sem fatores de risco associados)?

A La Leche League Internacional, diz que, embora não seja uma questão que tenha ainda sido alvo de estudos científicos concretos, os seus anos de experiência ao lado de mães que amamentam levam a crer que o risco de aborto espontâneo não está aumentado quando as mães amamentam na gravidez.

Na realidade, a La Leche League Francesa diz ainda, num dos seus artigos sobre este assunto, que a estimulação dos mamilos faz decretar ocitocina que, por sua vez, provoca contrações uterinas. No entanto, em alguns estudos feitos foi utilizada a estimulação do mamilo como meio para induzir contrações e iniciar um trabalho de parto numa gravidez de termo e concluíram que são necessárias cerca de três horas de estimulação contínua para induzir um trabalho de parto.

Assim, numa gravidez sem outros fatores de risco, não parece haver argumentos para um desmame forçado com base no risco de aborto espontâneo.

Será que amamentar durante a gravidez retira nutrientes necessários ao bebé que está a crescer na barriga da mãe?

Se a mãe fizer uma boa alimentação, equilibrada em termos de quantidade e qualidade, o seu organismo consegue dar resposta às necessidades do bebé em crescimento, do bebé amamentando e do seu próprio organismo.

Amamentar durante a gravidez pode ser cansativo, mas mais uma vez, a La Leche League Francesa refere que muitas vezes é precisamente o facto de amamentar ainda, que permite à mãe parar e descansar um pouco, até por vezes dormir a sesta com o bebé amamentado, pois muitas vezes é a única forma de conseguir que um bebé mais ativo sossegue um pouco.

Amamentar durante a gravidez não torna o leite mais fraco nem de menor qualidade.

«Sou imigrante e tanto o obstetra de cá como em Portugal mandaram parar imediatamente de amamentar. Tentei procurar uma resposta plausível, mas ambos diziam que o leite que tinha era para o bebé que se estava a formar e não para a irmã… Ainda amamentei por mais dois meses, mas a pressão por parte dos médicos acabou por vencer, se fosse hoje não cedia.»

No entanto, verifica-se frequentemente uma diminuição na produção de leite por volta do segundo trimestre. Alguns bebés acabam por fazer um desmame natural durante a gravidez, alguns devido à menor quantidade disponível, outros devido à alteração de sabor, mas é algo que ocorre de forma natural sem que nada seja forçado ou imposto ao bebé.

«Às 20 e poucas semanas, o mais velho começou a recusar a mama, fiquei tristíssima, e o boom hormonal só me fez chorar. Tapava a mama, encostava a cabeça e adormecia assim. Depois do parto pediu uma vez, mas já não lhe interessou mais.»

As maiores dificuldades enumeradas pelas mães em amamentar durante a gravidez estão relacionadas com a pressão por parte dos profissionais de saúde, com a parte emocional e com a sensibilidade extrema dos mamilos, o que faz com que a amamentação se torne desconfortável e mesmo dolorosa. No entanto muitas mães optam por continuar apesar do desconforto.

«Faço 26 semanas daqui a dois dias e amamento a mais velha de dois anos e oito meses. Deixou de ser prazeroso, aliás, é doloroso. Mas não consigo fazer o desmame.»

A parte emocional parece ser de todas a mais difícil de lidar. Na realidade, parece que há uma tendência natural dos mamíferos para rejeitar a amamentação de uma cria durante a gravidez, como que no intuito de proteger a cria em formação. Muitas mães referem de facto sentir alguma repulsa pelo bebé durante o momento da amamentação. É uma situação que provoca sentimentos ambivalentes e uma grande sensação de culpa na mãe que muitas vezes não compreende o que se passa.

«Cada vez que ele mamava despertava em mim um sentimento de repulsa. (…) Parecia um animal a rejeitar a cria. Que raio de sentimento é esse? (…) Nunca contei a ninguém o que sentia porque parecia mal.»

Podemos então concluir que é possível amamentar na gravidez, sim. O grau de risco só o obstetra o poderá avaliar, mas é importante saber que este risco não está presente em todas as gravidezes. Muitas vezes o desmame ocorre naturalmente, mas não havendo grau de risco que justifique o desmame forçado, apenas a mãe e o bebé podem decidir o caminho a seguir, caminho esse que é o deles, sendo por isso único e não comparável a outras realidades de outras mãe em situação semelhante mas com uma história e percurso de vida diferente.

Aqui fica um dos artigos da La Leche League Francesa sobre este tema.

Texto: Cátia Godinho do projeto A Nossa Mãe é Enfermeira

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