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Abusos sexuais: Os comportamentos e os traumas comuns de uma criança abusada

Redação
publicado há 2 meses
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A realidade no que toca a crianças e o abuso sexual de que muitas são alvo tem ganho contornos inexplicáveis. Na comunicação social, as notícias que dão conta de uma violação ou de um abuso sexual tornaram-se uma constante.

Segundo as estatísticas realizadas pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), entre 2013 e 2017 registaram-se 3 594 vítimas de crimes sexuais, entre as quais 752 crianças. Destas, cerca de 92 por cento são do sexo feminino.

De modo a perceber de que forma um crime sexual influencia a vida, o desenvolvimento e o crescimento de uma criança, falámos com a psicóloga criminal Maria Louro e a criminóloga da APAV, Carla Ferreira. As especialistas explicam quais são os comportamentos mais comuns – que indiciam um abuso sexual ou que indicam que algo se passa – e quais os traumas que influenciarão na construção da personalidade da criança numa idade mais adulta.

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«Não é uma coisa que acontece só nas famílias socioeconómicas desfavorecidas nem pessoas que vivem em situações de precariedade económica», começa por referir a criminóloga. «Mais de 60 por cento das situações que são reportadas [à APAV] são de abuso sexual de crianças», acrescenta.

Embora no senso comum se pense que apenas em famílias mais desfavorecidas acontecem crimes deste tipo a verdade está longe de ser essa. Basta que um agressor esteja motivado a cometê-lo que tem início o pesadelo para o(a) menor.

«Há uma tendência para termos mais meninas vítimas do que rapazes», afirma. A razão pode ser justificada com as estatísticas que referem que o número de homens agressores sexuais é maior que o número de mulheres.

«Manifestações de raiva inesperada, pânico e um medo irracional»

O ser humano tem, desde o momento em que nasce até ao que morre, um padrão de comportamento comum. Quando algo não está bem é natural que o comportamento se altere e, no que toca às crianças, é importante perceber alguns sinais.

Alterações fisiológicas

«Podemos falar de alterações fisiológicas, nomeadamente insónias, terrores noturnos, passar a fazer xixi na cama – coisa que não fazia ou que nunca fez – portanto há aqui manifestações comportamentais. Dores de barriga, vomitar, por exemplo», refere a psicóloga.

Alterações psicológicas

«Depois do ponto de vista psicológico a questão da raiva, muitas vezes uma tristeza profunda, o sentimento de estar só. O isolamento em relação aos outros, mesmo na própria escola. Procuram situações em que se sintam mais seguros ou mais protegidos. Ou então miúdos que tinham, aparentemente, um comportamento social adequado passa a ser ele desadequado. Por exemplo, dentro da sala de aula têm manifestações comportamentais desajustadas, como responder mal. Por vezes até do ponto de vista do aproveitamento escolar. Bons alunos que depois deixam de ser bons alunos», diz.

«Embora quando falamos de crianças por vezes seja mais complicado de perceber, o que é certo é que, à partida, não será uma criança alegre. Geralmente são crianças mais recatadas, mais no seu cantinho, muitas com uma tristeza muito presente. Às vezes têm manifestações de raiva inesperada e/ou, em situações em que não era suposto, demonstram pânico e um medo irracional. Com isto não quer dizer que estas alterações não sejam resultado de outro tipo de situação, no entanto quando as mesmas acontecem algo se está a passar», esclarece.

«É na família que eu aprendo a confiar no outro»

«A maior parte dos abusos sexuais são cometidos dentro da família. E quando falamos de família entendemos que é a primeira instância socializadora, aquela com que nós estabelecemos laços. É aqui a questão da vinculação. Muitas vezes estabelecem-se aqui vínculos inseguros, que à partida deviam ser seguros. É na família que eu aprendo a confiar no outro, que eu posso confiar, que a relação com o outro é segura.  Ora, se na própria família ou com aqueles que eu deveria poder confiar, é onde acontece o abuso claro que depois um dos traumas é essa desconfiança. E, muitas vezes, são pessoas que precisam de ajuda do ponto de vista psicológico e psiquiátrico. Os traumas muitas vezes são essa desconfiança constante, o não ser capaz de controlar a ansiedade. O abuso até pode ter ocorrido há muito tempo mas o que é certo é que não desaparece da memória. E uma coisa que se verifica nos estudos é que a questão do abuso sexual perdura na memória durante anos ou uma vida inteira», explica.

Uma criança abusada sexualmente será que tipo de adulto?

Embora não exista uma resposta certa ou errada, a verdade é que um abuso sexual não se esquece e deixa marcas para toda a vida. Segundo a psicóloga Maria Louro, o «enquadramento social, emocional e familiar» é a chave da questão.

«Por exemplo, há adultos que foram abusados e têm uma vida perfeitamente normal. Estão perfeitamente enquadrados, são casados, têm filhos e isso não os leva a serem infelizes ou mais infelizes do que pessoas que não foram abusadas. Tem a ver com as estratégias que o sujeito encontra para poder lidar com a situação que foi vivenciada de forma traumática. Mas tem acima de tudo a ver com estratégias adaptativas do seu modo de viver, onde obviamente precisa de uma rede social. E quando falo de rede social estou a falar de família e amigos. O contexto profissional também é importante uma vez que se sente valorizado. Há aqui todo um contexto que é importante nesse sentido», termina.

Projeto CARE – Rede de apoio especializado a crianças e jovens vítimas de violência sexual

A APAV iniciou em 2016 o Projeto CARE – uma rede de apoio especializado a crianças e jovens vítimas de violência sexual – que, em dois anos de atividade, já apoiou cerca de 549 pessoas, tendo registado em média 19 novos processos de apoio, por mês.

Leia ainda: Conheça o projeto inovador que promove a prevenção do abuso sexual em crianças

Este projeto tem como objetivo «sistematizar respostas e boas práticas de intervenção junto de crianças e jovens vítimas de violência sexual, seus familiares e/ou amigos.» «Nós temos optado por, no âmbito deste projeto, e de outros que a APAV tem desenvolvido – mas no que respeita especificamente às crianças e jovens vítimas de violência sexual – de ir aos locais. De ir aos locais, de ir falar com as crianças, desde o jardim infantil e do pré-escolar, porque as crianças, progressivamente, têm que estar mais alerta para estas situações. De falar com os educadores, com quem está com eles todos os dias, de falar com os pais quando os pais também querem falar connosco, de formar profissionais. Isto para nós é muito importante», menciona a criminóloga da APAV.

Estatísticas APAV: Crimes Sexuais 2013 – 2017

Entre 2013 e 2017 foram registados cerca de 3 948 crimes sexuais, de entre os quais 620 de abuso sexual de crianças e 435 de violação.

Em 2017 foram registadas cerca de 979 vítimas – tanto crianças como adultos -, mais 473 que as 506 vítimas registadas em 2013.

No que toca à idade das vítimas existem duas faixas etárias em destaque. Nos menores, as idades entre os 11 e os 17 anos registam um maior número de vítimas. Já nos adultos, as idades entre os 35 e os 44 anos são as de maior referência no que toca às vítimas de crimes sexuais.

Na tipologia de crimes estão descriminados os crimes de abuso sexual de crianças, tais como o assédio sexual, a importunação sexual, o lenocínio, a pornografia de menores, a violação, entre outros. Entre 2013 e 2017 o número de vítimas de abuso sexual de crianças foi aumentando cada vez mais.

A violação de menores e a importunação sexual têm nos últimos anos aumentado significativamente face ao ano de 2013. Também a pornografia de menores tem registado números elevados, aumentando para o triplo, face a 2013.

Texto: Marisa Simões

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