Família

«O maior desafio da educação é a falta de tempo dos pais»

Redação
publicado há 4 semanas
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Nuno Pinto Martins, certificado em Disciplina Positiva, acredita que «o maior desafio da educação é a fala de tempo dos pais». Em entrevista à Crescer, o especialista apresenta algumas estratégias para educar de forma construtiva.

 

Crescer – Tinha uma carreira sólida no jornalismo, mas mudou completamente de vida. A que se deveu essa mudança?
Nuno Pinto Martins – Costumo dizer que o que começou por ser uma circunstância acabou por tornar-se numa escolha. Há três anos estava a coordenar um projeto num grande grupo de Media e esse projeto acabou. Fiquei desempregado e encarei a situação como uma oportunidade para mudar de vida. Juntei duas paixões – a comunicação e a parentalidade – e em 2016 nasceu o site «Chupeta VIP», que criei em co-autoria. Menos de um ano depois lancei a Academia Educar pela Positiva, já depois de completar uma certificação internacional em Disciplina Positiva.

Muitos pais têm a ideia de que educação positiva é sinónimo de falta de regras…
Infelizmente é uma ideia comum, que convém esclarecer. As crianças precisam de regras, de limites e de rotinas, pois só assim se sentem seguras para desenvolverem todo o seu potencial. Mas isso pode ser estabelecido – e não imposto – de uma forma mais construtiva e efetiva, partindo da firmeza e carinho ao mesmo tempo como forma de atuar. E, sobretudo, através do estímulo e do seu envolvimento nas soluções. Sem prémios, gritos ou castigos.

Quais são hoje os maiores desafios na educação das crianças?
A falta de tempo dos pais. A vida em sociedade, como hoje a conhecemos, deixa-nos pouco tempo para o que deveria ser o mais importante: a família. Chegamos a casa muitas vezes exaustos, com a cabeça cheia de problemas, sem paciência e descarregamos em quem mais gostamos. Não podemos esperar mudanças de comportamento dos nossos filhos se não mudarmos primeiro os nossos, as nossas reações… mas para o fazermos temos de olhar para nós, de refletir. Temos de cuidar de nós para podermos cuidar dos outros.

Aos olhos da educação positiva, quais são os maiores erros que cometem os pais?
O excesso de autoritarismo ou de permissividade. Se, por um lado, querem ter tudo sob controlo e são autoritários, por outro sentem-se culpados (por serem demasiado duros ou por passarem pouco tempo com as crianças) e tornam-se permissivos. Essa falta de coerência tem consequências negativas, que se revelam mais tarde. É aqui que a Disciplina Positiva pode fazer a diferença, porque permite às famílias encontrarem um equilíbrio, um terreno intermédio que não é autoritário nem permissivo.

A educação positiva não é favorável aos castigos. Porquê?
Porque os castigos só resultam no curto prazo. São uma espécie de penso rápido, mas não vão ao fundo do problema, não o resolvem realmente. Se eu ameaçar uma criança que ficará sem aquilo que mais gosta caso não se «porte bem», é natural que ela pare com aquele comportamento, mas não estará a desenvolver responsabilidade, antes rebeldia ou submissão. Se, por exemplo, nos castigarem no nosso local de trabalho, vamos ter vontade de melhorar ou de ‘tramar’ o chefe à primeira oportunidade? É mais fácil castigar, dá menos trabalho do que tentar perceber quais as razões do comportamento para depois atuarmos de uma forma mais positiva, conectando antes de corrigir. Mas quando comparamos os resultados da aplicação dos dois métodos educativos – e tenho tido essa prova com os meus filhos – percebemos que vale a pena confiar na Disciplina Positiva.

Nuno Pinto Martins era jornalista e viu-se «obrigado» a mudar de vida

 

Nas suas formações, já encontrou famílias com problemas graves na educação das suas crianças? Que soluções apresentou?

Nas formações de Disciplina Positiva tenho encontrado, sobretudo, pais e educadores «normais», com as dúvidas e ansiedades comuns à maioria. Por vezes aparecem alguns relatos de situações mais complicadas mas, mais do que apontar soluções, procuro que reflitam sobre como estão a educar e apresento algumas «ferramentas» simples, que poderão ou não decidir aplicar lá em casa. Porque são os pais os únicos especialistas nos seus filhos.

Afinal, como se educa pela positiva?
Com firmeza e carinho/respeito ao mesmo tempo, respeitando a criança, estimulando-a, envolvendo-a, ouvindo-a. E, mais importante do que tudo, passando tempo de qualidade com elas, para que se sintam amadas, importantes.

Qual é o papel do «não» nessa filosofia?
Educar pela positiva não quer dizer que tudo seja negociável, o «não» é importante e saber lidar com ele mais ainda. As crianças e os adultos têm igual valor, mas diferentes papéis. E isso tem de estar bem claro na relação pais/filhos. Nem tudo é negociável e quando for necessário os pais devem, com a tal firmeza e carinho, usar o “não” sem receios ou ansiedades.

Como se pode melhorar a comunicação com os filhos em fases do crescimento que são de desafio em relação aos pais?
Todas as fases apresentam os seus desafios e cada criança é uma criança, com o seu próprio ritmo de desenvolvimento, o que devemos respeitar. Na adolescência, por exemplo, tendemos a «apertar o cinto» e a sermos mais autoritários ou controladores, quando o que o adolescente precisa é do contrário, que confiem nele, que lhe deem espaço. Nesta fase, é importante alertar para os perigos, claro, mas o essencial é mostrarmos que estaremos lá para eles, orientando-os e apoiando-os nas suas escolhas.

Existe um padrão para cada idade? Os pais devem ter esse patamar em conta na hora de educar?
Não gosto de falar em padrões, porque isso é falar de rótulos e de etiquetas, o que é perigoso. Quando uma criança foge ao «padrão» que estabelecemos, tendemos a agir com base em estratégias pré-estabelecidas, que muitas vezes não têm em conta a individualidade de cada um. Dou o exemplo da hiperatividade. Hoje rotulam-se as crianças como hiperativas por tudo e por nada. E qual é a solução mais fácil? Medicar, com ritalinas e afins. Em alguns casos até pode ser o caminho, mas acredito que em grande parte deles é apenas a «solução» que dá menos trabalho. Porque depois temos situações como a do miúdo que ficava tipo «zombie» quando tomava ritalina, ao ponto de confessar aos pais que quando marcava um golo sob o efeito do medicamento, não tinha vontade de comemorar, ao contrário do que habitualmente fazia em estado «normal».

Em termos práticos, como se pode controlar uma birra sem recorrer a gritos ou a atitudes mais agressivas?
Depende muito da birra e da idade da criança. Com crianças mais pequenas (até aos três anos), por exemplo, uma das principais estratégias passa por distrair, redirecionar, mudar o foco. Mas depois de acalmar é preciso conectar e corrigir o comportamento, conversando com ela utilizando uma linguagem simples e acessível. E claro que é tudo mais fácil se estivermos bem, se cuidarmos de nós teremos uma maior facilidade na gestão de conflitos. Respirar fundo também ajuda (risos), permite-nos aceder à parte racional do cérebro e assim sermos menos reativos.

Existe hoje uma maior preocupação com o tempo de qualidade que os pais dedicam aos filhos?
Tenho dificuldade em fazer essa análise. Há muitos pais que fazem por estar presentes na vida dos filhos, dispensando-lhes o tal tempo de qualidade, mas sinto que muitos outros não podem, não querem ou não conseguem fazê-lo, por variadas circunstâncias. As exigências da vida moderna também são muitas e nem sempre conseguimos ter as prioridades bem definidas. Mas uma coisa é certa: passar, regularmente, tempo de qualidade com uma criança, é a mais poderosa das «armas» de qualquer pai ou educador.

Como descreveria os pais de hoje?
Não quero rotular, mas durante as formações de Disciplina Positiva vejo muitos deles stressados, cansados, frustrados, preocupados. Sentem-se culpados por não passarem o tempo que gostariam com os filhos e por serem muitas vezes autoritários ou permissivos. Sem querer julgar ninguém, acredito que é possível fazer melhor, sem pretender ser perfeito. Basta querer.

https://www.facebook.com/academiaeducarpelapositiva/
Próximas formações disponíveis em www.educarpelapositiva.pt

 

Texto: Cynthia Valente
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