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Muito cuidado com a Síndrome do Bebé Sacudido (Shaken Baby Syndrome)

Redação
publicado há 1 mês
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Já ouviu falar da Síndrome do bebé sacudido (Shaken Baby Syndrome)? A enfermeira Cátia Godinho, do projeto A Nossa Mãe é Enfermeira, enviou, em exclusivo para o site Crescer, um dos capítulos do livro que está a preparar para lançar em breve. «Embora já tenha escrito cerca de 80 por cento, ainda não passa de um desejo meu, mas espero que se realize», diz-nos.

Quando se fala em maus tratos infantis, pensa-se quase imediatamente nos tipos de maus tratos que são levados a cabo com intenção – normalmente de castigar ou punir a criança – como os maus tratos físicos ou psicológicos. No entanto, há uma forma de maus tratos, que ainda é desconhecida da maioria da população: a Síndrome do Bebé Sacudido.

O que é?

A síndrome do bebé sacudido é uma das formas mais graves de maus tratos infantis. Um problema atual, com repercussões mundiais, em que as taxas de mortalidade rondam os 13 a 36 por cento e as taxas de morbilidade (sequelas) 62 a 96 por cento.

É um problema que pode atingir crianças até aos cinco anos de vida, mas a sua ocorrência é mais comum até aos dois anos, e predominantemente nos primeiros 12 meses de vida.

Mas afinal, o que é o síndrome do bebé sacudido, ou «Shaken Baby» como também é por vezes conhecido? É o abanar de forma violenta e repetida um bebé, causando sérios danos neurológicos.

Isto acontece na grande maioria dos casos, quando o cuidador – muitas vezes um dos pais ou uma ama – está desesperado pelo choro do bebé, e abana o bebé numa tentativa de o calar. São poucos os cuidadores que dizem ter noção do perigo que representa este ato, no entanto, é um ato brutal e voluntário, mesmo se movido pelo desespero, e é por isso considerado um ato grave de maus tratos infantis.

Quando um bebé é abanado desta forma, a gravidade da situação é imediatamente posta em evidência por quem possa assistir à cena, mesmo sem ter quaisquer conhecimentos sobre o assunto, devido à sua brutalidade.

O mecanismo explica-se pelo efeito de chicote cervical, tendo em conta que no primeiro ano de vida a cabeça representa uma grande percentagem da superfície corporal do bebé, sendo o seu peso igualmente importante, e por outro lado os músculos cervicais que não estão ainda suficientemente desenvolvidos para suster esse peso.

Quais as consequências?

As lesões são provocadas pela ruptura dos vasos sanguíneos cerebrais. Na verdade, ao abanar repetida e violentamente um bebé, o seu cérebro vai ser comprimido, podendo mesmo sofrer uma distorção dentro do crânio devido aos movimentos de rotação. Além disso, durante este mecanismo pensa-se que, devido à grande diferença de tamanho entre a caixa craniana e o cérebro do bebé (a caixa craniana é maior para deixar espaço ao crescimento e desenvolvimento cerebral) o cérebro possa embater directamente contra a superfície interna do crânio, o que causará a laceração de vasos sanguíneos.

Além das várias hemorragias cerebrais que podem resultar desta síndrome, pode igualmente haver hemorragia da retina, e lesões do tronco cerebral e da espinhal medula, comprometendo assim os centros respiratórios.

Tudo isto é susceptível de causar a morte do bebé, ou deixar sequelas graves para toda a vida, como um profundo atraso mental, estado vegetativo, crises convulsivas, paralisia cerebral, tetraplegia espástica, microcefalia, atraso do desenvolvimento psicomotor, surdez, dificuldades na fala e linguagem, e atrofia cerebral, cegueira. Não há casos deste síndrome sem sequelas, no entanto podem haver sequelas tardias como dificuldades de linguagem, dificuldades de aprendizagem, etc.

Aproximadamente uma em cada quatro vítimas desta síndrome morrem nos dias seguintes ao episódio.

A prevenção

De acordo com inúmeros estudos, estima-se que cerca entre 25 e 50 por cento da população não está ocorrente dos perigos inerentes ao mecanismo de abanar uma criança.

Rimsza et al conclui?ram que 61 por cento dos casos fatais da síndrome podiam ser evitados. Assim sendo, é fundamental identificar os fatores de risco, e investir na prevenção.

Se a nível internacional este é um tema estudado e que merece destaque e ações de sensibilização, em Portugal parece ser um tema um pouco ignorado ou, pelo menos, pouco valorizado.

Nos Estados Unidos da América, há mesmo uma linha telefónica para os cuidadores que se sentem a chegar ao limite possam ligar e ser ajudados, evitando assim que percam o controle e caiam na tentação de abanar a criança.

Cuidar de um bebé que chora durante horas é desesperante. Cuidar de um bebé que não dorme é desesperante. Eu vivi isso com a minha filha, e felizmente sabia perfeitamente os riscos, porque admito que muitas vezes o desespero era tal que a vontade de a abanar era muita.

É por tudo isto extremamente importante que se comece a apostar na prevenção, na sensibilização de pais, cuidadores, e profissionais de saúde.

É importante que os pais saibam os riscos que correm. É importante que os profissionais de saúde possam ter sensibilidade suficiente para evocar este problema mediante certos sintomas. É urgente que possam identificar pais exaustos que podem colocar inconscientemente em risco os seus bebés, e activar recursos familiares e sociais para apoiar estas famílias, como acontece noutros países em que as mães podem ter direito a ter apoio domiciliário para cuidar da casa, dos outros filhos ou até do bebé em questão para poderem recuperar forças.

A prevenção é, a meu ver, o ponto mais importante desta problemática. É urgente parar de fingir que o problema não existe. Não adianta fechar os olhos e rezar para que não aconteça. É urgente e importante que se fale sobre isto, que se sensibilize população e profissionais. Nas aulas de preparação para o parto, na maternidade, no centro de saúde, no pediatra. É importante desmistificar o choro do bebé, parar de diabolizar o colo, incentivar a resposta às necessidades do bebé de modo a reduzir a intensidade de stress ao qual um recém-nascido está exposto, reduzindo assim na maioria dos casos o choro de final de dia (choro de descarga) que é tão desesperante e perante o qual os pais se sentem desarmados.

Assim, é importante saber que:

  • Um bebé pode chorar durante várias horas seguidas, sem qualquer razão aparente. É a sua única forma de expressão e de libertar tensões.
  • Um adulto pode sentir-se exasperado a ponto de ter vontade de abanar o bebé na tentativa de o fazer calar.
  • Abanar um bebé pode matar ou deixar graves sequelas para a vida.
  • Uma única vez pode ser o suficiente para criar lesões que deixam marcas para toda a vida.
  • Abanar um bebé é muito mais grave que uma queda do muda fraldas por exemplo.
  • Abanar não é brincar, podemos e devemos brincar com os nossos bebés, sendo a brincadeira adaptada à sua idade.
  • Abanar uma criança é um ato grave de maus tratos infantis.
  • É importante falar sobre isto com as pessoas que tomam conta da criança.

Se alguma vez se sentir desesperado/a e ultrapassado/a pelo choro do seu bebé, deite-o na cama dele de costas, assegurando-se de que não há objectos na cama que possam representar qualquer perigo para o bebé, feche a porta do quarto e peça ajuda a familiares, amigos ou vizinhos. Na impossibilidade de o fazer, afaste-se do quarto onde está o bebé, e dedique uns minutos a si mesmo: feche os olhos, respire de uma forma consciente, como se estivesse a cheirar uma flor e em seguida apagar uma vela. Lembre-se que por mais desesperante que seja o choro de um bebé, o acto de abanar pode matar ou debilitar para o resto da vida.

Pode ver aqui neste vídeo o mecanismo do síndrome do bebé sacudido.

Saiba mais sobre o choro de descarga e o stress do recém-nascido neste vídeo.

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